Emmanuel de Cériz
IGNIUS
.O Mistério da Transmutação.
Cap - 1
FASE I
NASCENTE
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
….....………………………………………………………
Mas o mais insólito é que parecia a Íris haver mesmo algo de profundamente alienígena em Atlan. Ele parecia possuir estranhas memórias. Recordações mais ou menos fugazes de um qualquer “passado” distante vivido não sabia onde nem quando...
Algumas dessas “lembranças” eram tão invulgares que parecia não se poderem enquadrar em qualquer época, mundo, ou situação em que nós, seres humanos, pudéssemos alguma vez ter vivido. E, no entanto, ele confidenciou-lhe que por vezes as sentia tão suas e tão reais que era como se, por breves instantes, a sua mente interior descerrasse uma cortina para lá da qual se escondia uma outra realidade pessoal ainda mais ampla, ainda mais verdadeira e profunda do que aquela em que vivemos.
Uma dessas aparentes “memórias”, talvez uma das mais remotas, era a de “um deus muito antigo”, algo que Atlan tentara descrever e sintetizar num pequeno texto que escrevera na sua adolescência...
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Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)

Um deus antigo
Ele era Ptah, o três vezes grande Ptah.
E caminhava para Ptah, capital do seu império de Gonwonlane...
Ele era um ser muito antigo.
Talvez um deus... de um universo há muito desaparecido ou perdido no tempo.
Não sei...
Talvez tenha sido poupado, tolerado ou respeitado por todos os deuses e universos que lhe sucederam.
...Até ao nosso Tempo.
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Mas quis misturar-se com a espécie. Sentir Tudo.
Vislumbrar todos os parâmetros.
Ser um ser ínfimo e ser também o infinito.
Ser animal e ser humano.
Perfeito, mas também tropeçar.
Descobriu ser essa a sua plenitude do seu desejo: tudo ser.
...
Mas, para isso, pareceu-lhe ser necessário descer dos céus e morrer como deus que era...
Criou então um adversário ..
...e deixou-se despedaçar por ele. Fragmentou-se em vários pedaços dispersos.
E assim, de certo modo, morreu.
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...E nasceu no seio da sua própria criação,
como apenas mais um ser por ele criado.
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...
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Agora iria empreender toda a longa marcha
que o levaria de novo ao seu ser.
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E no fim,
teria realizado a grande síntese sinérgica:
Seria mais do que ele próprio havia alguma vez sido.
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
A aventura quântica começa na Grécia Antiga, há 2500 anos (pelo menos segundo a História conhecida)...
É quando Demócrito considera que a matéria é um conjunto de minúsculas partículas, às quais chama ‘átomos’.
‘Clinamen’ é a noção do incessante e errático movimento destas partículas (“de uma desconexa turbulência!”) expressa mais tarde pelo poeta romano Lucrécio.
Empedócles , Epicuro e Pitágoras defendem a teoria da descontinuidade da matéria.
Mas a teoria oposta, a da continuidade, defendida por Heráclito e pelos Eleatas mantém-se dominante durante mais 23 séculos...
...até à descoberta do movimento browniano em 1827.
Mas é só com os trabalhos de Wiener, Delsaux e Carbonelle, entre 1863 e 1895 que se chega à teoria molecular dos gases.
Já em 1811, Avogadro estabelecera a sua hipótese de que volumes iguais de gases contêm o mesmo número de moléculas.
Porém só em 1875, Van der Waals mede o número de Avogadro = 6 x 1023 moléculas por mole (molécula-grama de um gás).
Mas só com a realização de experiências no domínio da electricidade se dá o grande passo...
Assim, em 1880, é observado o primeiro feixe de raios catódicos num tubo de Crookes.

E em 1895 J. Perrin demonstra que os raios catódicos são na realidade partículas em movimento.
Mas é com a famosa experiência de J. J. Thomson que se evidencia, por um lado, serem tais partículas desviadas pelos campos eléctricos e magnéticos e possibilita, por outro, medir o quociente e/m – das suas cargas pelas respectivas massas.
E assim nasce o electrão, a primeira das partículas elementares, indicada pelo símbolo e–...
A Aventura Quântica, 1
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
Mas Ptah decaíra inicialmente apenas para um estado intermédio...
E, tal como o bosão intermediário,
...Ele(s) viviam entre o céu e a terra.
...Eram miríades de cavaleiros que povoavam as nuvens fúlgidas...
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O conceito de Campo, em física, é simplesmente uma quantidade, tal como a temperatura, definida em cada ponto através de uma região do espaço-tempo (como, por exemplo, a superfície de uma frigideira).
O termo “campo” é geralmente reservado para entidades tais como o campo gravitacional e o campo electromagnético. Os campos geralmente fazem sentir-se por meio do intercâmbio de uma partícula intermediária. A partícula que medeia ou que é portadora, do campo electromagnético, por exemplo, é o fotão, ou quanto de luz. A partícula intermediária do campo gravitacional crê-se que poderá ser o gravitão, embora ainda não tenha sido detectado. Os intermediários do campo de interacção nuclear forte são oito tipos de gluões. E as partículas intermediárias do campo de interacção fraca são três bosões vectoriais, designados por W+, W- e Z0.
Por analogia, o hipotético bosão de Higgs seria a partícula intermediária do proposto campo de Higgs — a ‘quinta força’.
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
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Em outras ocasiões, os “estranhos sonhos”, ou “vislumbres tumultuosos de uma qualquer memória não terrena” de Atlan condensavam-se na visão de miriades de Seres Alados que nos primórdios turbilhonaram a ebulição dos céus num frenesim de estranhas batalhas.
Eram milhares, ou mesmo milhões, de seres poderosos que viviam entre o céu e a terra e que pareciam ter resultado da fragmentação em múltiplos estilhaços de uma qualquer divindade única e inicial...
Era uma época de tempos sem tempo.
E em que o poder desses seres prevalecia sobre as próprias leis da física.
Atlan mostrou a Íris a folha de papel já amarelecida pelos anos onde descrevera um desses seus “sonhos” de invulgar nitidez que tivera recorrentemente na sua infância.
Chamava-lhe “Batalha Púrpura” porque lhe parecia uma contenda travada sobre as nuvens inflamadas dos tons avermelhados do sol poente e tingidas do sangue dos cavaleiros…
E durante esse “sonho” ou “regresso momentâneo do seu espírito a outro lugar e a outro tempo” ele, Atlan, sentia que estivera lá, naquele cenário, lutando por uma qualquer causa agora desconhecida.
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Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
A Batalha Púrpura
Nem sabemos o que é melhor: conquistá-los ou sermos conquistados por eles. Os filhos de Dhrtarasästra estão agora na nossa frente neste campo de batalha. E se os matássemos, não nos importaria viver.
Antigo texto Veda do Bhagavad-gitä

Naquele tempo [será que deverei dizer ‘tempo’?] os homens [será que deverei dizer ‘homens’] não eram escravos da Irreversibilidade [ah! é por isso que não eram homens ~!] e a Guerra era apenas um Jogo e uma Arte ~~~
“Escravo” – qualquer indivíduo que é obrigado a fazer [ou ser] aquilo que não quer, sem qualquer alternativa.
“Liberdade” – qualidade daquele que não é escravo.
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
Batalha Púrpura
Os cascos dos cavalos martelavam furiosamente
as poças vermelhas dispersas por toda a parte.
Os cavalos seriam brancos,
mas, ou tinham reflexos de fogo,
ou estavam tingidos de sangue.
No centro de todas estas nuvens, banhadas de púrpura
pelo sol poente, Eólipus lutava com vigor.
Mergulhado até aos joelhos, mas de pé firme,
brandia furiosamente a espada.
O seu cavalo estava já não sabia onde,
mas ele continuava,
escorrendo sangue pelos braços, pelos flancos,
pelas espáduas.
Golpeava, penetrava e decepava
os valentes e nobres adversários.
O vermelho tudo tingia.
Era um banho de sangue,
era a violência total. A dor. Implacável.
As nuvens estavam alagadas
de pequenas e grandes poças de sangue;
os cavalos atropelavam-se;
os guerreiros rasgavam-se.
Mas, surpreendentemente, era belo...
Até magnífico!
A apologia total da violência…
…Mas de uma violência divina…
...porque, afinal, todos eles eram Reversíveis.
E por isso tinham o poder de se reconstruirem,
de se regenerarem..
...totalmente!
...
e
então,
no agora,
Atlan supunha
que o que tornava tão terrível
a violência na Terra,
e insuportável a dor,
era a irreversibilidade.
... porque todos nós somos, afinal,
escravos do Tempo!
.
Nunca houve um tempo que Eu não tenha existido, nem tu, nem todos esses reis; nem no futuro nenhum de nós deixará de existir...
Diálogo entre Krishna e Arjuna,
antigo texto Veda “Bhagavad-gitä”
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
Fragmento #1

Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
Fragmento #2
O grande monarca, no trono sumptuoso, estava imerso em profundas reflexões:
“Um dia, Gea veio ter comigo a Uruk. Foi há muito, muito tempo...
“Trazia um pequeno Phero ao colo.
“E pediu-me que a deixasse levá-lo ao mundo de baixo.
...e os Pheros
“Seria uma curta viagem”, dissera, “...em breve regressaria.”
“Como justificação deu-me um propósito indefinido.
“Mas o Phero nunca mais voltou.”
...tinha ficado perdido no tempo.
“Estranho e
Pheroz Phero
aquele, que se refugiava no convívio dos leões.
“Sempre lhe pressenti uma vontade obstinada e qualquer objectivo desconhecido, mas nunca o compreendi.
“Nem à sua força Impetuosa e indomável, capaz de vergar leões.
“Onde andará ele agora?...”
Baixo relevo Sumério representando Gilgamesh, REI de Uruk, dominando um Leão
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
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Reminiscências passadas?
Porque se identificava Atlan tanto com algumas espécies de seres lendários?
Em certos momentos a sua memória parecia descerrar um véu que o deixava entrever vivências de seres poderosos que se situavam entre os deuses e os homens...
Íris questionava-se muitas vezes se esse fenómeno não seria afinal uma capacidade mais aguçada que o comum que Atlan tinha de recordar fragmentos de uma “memória colectiva” subjacente a todos nós. O “inconsciente colectivo” da nossa espécie? ...não, parecia algo mais profundo e abrangente do que isso...
Segundo mais tarde Atlan lhe explicou, ele considerava todas as entidades existentes, isto é, todos os seres e objectos, como “nuvens de possibilidades”.
– Qualquer entidade existente, Íris, é afinal uma nuvem de possibilidades que contém, predominantemente, essa determinada entidade mas também todas as outras entidades alternativas, as quais, aparentemente, ela não é.
– Mas então, se tudo são “nuvens de possibilidades” – perguntou-lhe Íris – o que é que distingue as coisas umas das outras?
“Uma boa questão, sem dúvida”, pensou Atlan continuando a caminhar com o olhar preso no infinito.
– Talvez apenas a memória Íris, talvez apenas um diferencial de memória...
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Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
Finalmente, em 1910 Milikan realiza a experiência que permite medir a carga eléctrica do recém-nascido electrão.
Já há algum tempo atrás se conhecia o fenómeno luminoso da interferência que levava a admitir ser a luz uma onda sinusoidal que se propagasse no espaço como as vagas no oceano.
E Maxwell, em 1868, definira o seu movimento numa das mais elegantes equações da física, considerando as vibrações luminosas como o caso particular das ondas electromagnéticas em que a frequência de oscilação é maior , o que corresponde a um menor comprimento de onda.
Em 1896 Henri Becquerel descobre a radiactividade, através da impressão acidental das radiações de sais de urânio numa placa fotográfica.
E em 1899 Giesel e Meyer descobrem uma outra radiação penetrante dotada de carga eléctrica.
Marie Curie, Villard e Becquerel descobrem radiações sem carga eléctrica em 1901.
É então que Rutherford, em 1903, identifica a radiação a como uma partícula e conclui que a radiactividade é o sinal da desintegração do núcleo atómico.
Mais tarde, sugere um modelo atómico onde electrões giram em torno de um núcleo de carga eléctrica positiva mas da mesma magnitude que a dos seus electrões.
Admite-se então que:
a partícula a é um núcleo de hélio (2 protões e 2 neutrões)
o raio beta é um electrão
o raio gama é um quanto de radiação electromagnética
...e supõe-se que o fotão será um “grão de luz”.
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)

“Um deus no corpo de um homem não é um deus nem é um homem”, pensava Eólipus-Gilgamesh-Atlan.
Agora, que finalmente decaíra para um estado de baixa energia, só ansiava por recuperar a sua natureza perdida...
“Se alterarmos o bosão intermediário, toda a realidade se alterará”... fora esse o estranho sonho que tivera. E que no momento lhe parecera uma estrela, uma luz na escuridão. Uma porta para a Liberdade Total.
(...Mas, de onde lhe viera aquela ideia?)
(De onde viera aquela estranha memória?...)
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
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“Um deus no corpo de um homem não é um deus nem é um homem”, ouvia Íris tantas vezes dizer Atlan quase que num queixume.
E, nesses momentos, quando olhava para ele, talvez num fugaz momento da sua imaginação, parecia-lhe não o vêr simplesmente a ele mas a um ser complexo… talvez algo como uma mistura de seres, talvez algo como um Ptah-Eólipus-Gilgamesh-Atlan…
E então soltava a sua fantasia e deixava-a voar até admitir a hipótese de que aquele jovem que caminhava ali, ao seu lado, pudesse ter sido, algures nos meandros da teia da existência e do tempo, uma qualquer espécie de ser dotado de poderes quase ilimitados ou divinos que, por algum motivo, decaíra para um estado de baixa energia e agora sofria com isso e só ansiava por recuperar a divindade da sua natureza perdida... Percebia-lhe o seu sofrimento, angústia e pavor de nunca vir a conseguir recuperar o seu anterior estado intemporal e quase absoluto. Isso claro, se as “estranhas memórias” de Atlan tivessem qualquer base real…
Por vezes Atlan também sonhava com supostas soluções para o seu problema: soluções que possibilitassem transmutar-se a si e à realidade nas suas condições anteriores à queda no estado humano e mortal. Alguns desses sonhos seriam possivelmente o resultado de tantas horas de pesquisa como as que despendia na física das partículas sub-atómicas:
“Se alterarmos o bosão intermediário, toda a realidade se alterará”... fora esse um dos estranhos sonhos que tivera. E que no momento lhe parecera uma estrela, uma luz na escuridão. Uma porta para a Liberdade Total.
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Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
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Devido a partilharem cada vez mais o encantamento que rodeava o segredo da transmutação, Íris e Atlan passaram a encontrar-se com frequência.
Eram habituais os seus longos passeios através da frescura de frondosos jardins onde passavam horas e horas a deliciarem-se com aquilo que iam conhecendo um do outro.
Por vezes entrelaçavam as mãos e Atlan apercebia-se de como era macia e acolhedora a pele de Íris e de como era bom estar ali, simplesmente, com ela.
Ele possuía uma invulgar memória onírica e contou-lhe, com uma precisão admirável, sonhos que tivera há muitos anos atrás, alguns deles ainda na sua infância. Mas aquele que mais a impressionou foi “A Saga de Eoalkper Eoasell”.
Devido à sua estranha nitidez assemelhava-se mais a uma experiência realmente vivida do que a um sonho. E quando Atlan o evocou, ao começar a contar-lho, Íris olhava para ele e sentia que ele o vivia de novo:
– Subitamente caí num sono profundo e vi-me a mim próprio numa outra parte da Terra sulcada de ilhas numa época distante. E nem sequer me chamava Atlan, chamava-me Eoalkper Eoasell...
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Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
A saga de eoalkper eoasell

síntese simbólica de um percurso
Há muitos milhares de anos, perdida na imensidão do tempo, existia uma pequena nação de guerreiros onde vivia uma criança chamada Eoalkper Eoasell.
Eoasell era um menino com sete anos de idade em tudo semelhante aos outros. Mas, tinha a estranha sensação de que aquilo que era, não correspondia ao seu verdadeiro ser. Sentia que este seu corpo era muito frágil e limitado; como que o estranhava. Porém, perguntava-se:
“Como posso estranhá-lo se nunca tive outro?”
Por vezes, tinha realmente a sensação de que já tinha tido uma natureza diferente, poderosa e ilimitada e, que agora, estava aprisionado neste corpo onde aprisionadas estavam também as suas capacidades.
Não, esta não poderia ser a sua verdadeira natureza: nas suas brincadeiras, a sua força interior, fazia-o saltar de altos muros, mas ao aterrar, rachava a cabeça e magoava-se. Apesar disso, persistia, sentia que não poderia ser assim, ele não era assim, não poderia ser assim frágil. Ao brincar de guerreiro, atirava-se sozinho contra muitos adversários. As outras crianças envolviam-no como formigas e acabavam por fazê-lo tombar. No interior de Eoasell pulsava um outro tipo de ser — um ser indomável e ilimitado. Um ser que se entristecia por não poder cruzar os céus como um cometa e mergulhar no fogo do sol, atravessando-o de um lado ao outro e ficando ao rubro, mas mantendo-se indestrutível, imparável, pleno de liberdade total. Deveria ser capaz de derrubar muros, de remover rochedos, de parar a chuva e, sempre que se ferisse, o seu corpo deveria regenerar-se de imediato. Eram estas as estranhas sensações do pequeno Eoalkper Eoasell.
Quando fez quinze anos, passou casualmente em casa de Elinoa, uma velha sábia, e encontrou-a reunida com outras anciãs. Soube que algumas eram de terras distantes, do outro lado da costa. Como estavam na estação fria, sentavam-se em volta do fogo que crepitava e contavam lendas e histórias de um passado longínquo e nebuloso. Uma dessas lendas causou um impacto e um sentimento de familiaridade inesperados em Eoasell. Quem a contava chamava-se Amaroa:
“Há muito tempo atrás, existia um deus chamado Manu. A sua aparência física era semelhante à de um humano. Diz-se até que foi criada por ele a nossa espécie.
“A dada altura, não se sabe bem porquê, Manu decidiu deixar de ser um deus para se tornar humano. Talvez porque se sentia só e queria ser um entre muitos seus iguais, ou porque queria fazer evoluir os seres humanos a algo semelhante a si próprio, ou porque se queria transcender... ninguém sabe ao certo.
“Manu fragmentou-se então em muitas partes e misturou –se com as almas dos embriões humanos. Ao dividir-se em várias partes perdeu a consciência de si próprio e entrou no oblívio, no esquecimento de si mesmo. Porém, em algumas crianças, sobraram memórias vagas da natureza passada de Manu.
“Foi o que ocorreu com um menino chamado Eus. Desde muito cedo começou a sentir uma estranha nostalgia. Era como se estivesse habituado a outro tipo de existência, mais livre, com menos impossíveis. Sentia-se também pouco integrado na sua espécie. As outras crianças não partilhavam da sua sensibilidade e do seu gosto por desvendar os mistérios do universo. Divertiam-se a fazer mal aos animais e faziam chacota do seu interesse por aprender as ciências do mundo. Mentiam e, por vezes, roubavam-lhe coisas. Eus não compreendia a maldade que encontrava nos seus semelhantes, sobretudo nos adultos que cometiam actos ainda mais cruéis e brutais. Não se sentia fazendo parte da mesma espécie nem se sentia em casa. Por isso sonhava em encontrar o caminho para “casa” e conviver com os da sua “própria espécie”.
“Um dia teve um sonho muito estranho. Sonhou que estava suspenso a alguns metros do solo sobre umas colinas verdes onde passava um ribeiro. Ele irradiava energia e tudo à sua volta, as árvores, o céu e a água, pareciam ondular e vibrar de acordo consigo numa coreografia viva e plena de amor. Toda a natureza em seu redor comportava-se como uma extensão de si próprio. Depois, subitamente, o seu corpo transformou-se numa bola de fogo que ascendeu ao céu e explodiu em inúmeras centelhas de luz. As centelhas voaram e, como que por instinto, cada uma delas encontrou um feto humano com o qual se fundiu. Aqui, Eus acordou.
“Depois desse dia, a natureza de Manu começou a despertar em Eus que, como que por instinto, seguia o caminho para alcançar a liberdade dessa existência sonhada.
“Após ter vivido ainda muitos anos alcançou-a mesmo e tornou-se um ser sem limitações como Manu, mas conservou também todas as boas qualidades da humanidade.
“Assim termina a lenda de Eus” – concluiu Amaroa.
Uma lágrima rolou quente pela face de Eoasell. Era a primeira vez que ouvia algo de comum com o que sempre sentira no seu interior. Pensou que talvez algo de idêntico com a lenda que escutara tivesse ocorrido com ele. Isso explicaria a sensação que sempre tivera de não pertencer verdadeiramente ali e de já ter sido um ser muito diferente.
Quer fosse assim ou não, Eoasell começou a pensar que deveria ser possível transformar-se num ser ilimitado. “Mas como?” – interrogava-se.
A sua busca não foi fácil. Frequentou todos os arquivos e leu todos os escritos que pôde, mas não havia quase nada que o pudesse ajudar a descobrir como conseguir transformar a sua natureza em algo ilimitado. Era algo estranho e ignorado.
Prosseguiu no entanto com a sua aprendizagem sobre o que se conhecia do ser humano e das leis da natureza. Havia vestígios de ciências antigas, de um tempo em que houvera na Terra um conhecimento mais avançado e parcialmente perdido. Depois da sua deambulação por vários lugares do seu mundo e da meditação daquilo que se conhecia da história da humanidade, só lhe restava deixar-se guiar pelo seu instinto e pela sua intuição. Começou então a fazer experiências consigo próprio. Aprendera uma coisa com um velho místico que conhecera numa ilha distante e que lhe trazia uma espécie de conhecimento silencioso. O velho dizia que era uma forma de beber directamente da fonte do conhecimento universal. Era uma espécie de meditação em que se mergulhava por breves instantes num estado sem pensamentos. Durante esse tempo a consciência habitual anulava-se e ficava apenas um outro tipo de consciência, uma consciência impessoal. O velho Quatl chamava-lhe atingir o estado zero, tornar-se no nada.
“Ser o nada e conseguir doseá-lo, manejá-lo, nisso consiste o grande segredo da existência” — dizia.
Porém, para o próprio Quatl, isso era uma verdade intuitiva e nem ele compreendia todo o seu alcance.
“É muito difícil atingir o nada” — prosseguia o velho --”e mais difícil ainda conseguir sê-lo e manejar esse estado, entre o nada e o ser.”

Um dia, Eoasell teve um grave acidente. Caiu por um precipício e através dos seus ferimentos perdeu quase metade do seu sangue. As dores eram lancinantes e sentiu que estava a morrer. Então, subitamente, mergulhou numa espécie de sonho, mas sem as características habituais de um sonho; possuía todas as qualidades e nitidez de uma experiência real: encontrava-se à entrada de um estranho edifício que reconheceu ser uma biblioteca, não tendo no entanto visto nunca uma igual. Também o tempo e o lugar lhe eram estranhos. Apesar disso entrou e sentiu-se fortemente atraído por um dos volumes daquilo que lhe disseram ser um livro, um conjunto de folhas envolto por uma capa dura. Abriu-o, aparentemente ao acaso e, sem saber como, compreendia perfeitamente a língua em que estava escrito. Mas o mais surpreendente é que estava lá tudo, com uma clareza e uma simplicidade impressionantes. Todos os segredos que procurara desvendar todos esses anos: os segredos acerca do controlo total sobre o corpo e a alma e sobre a expansão da consciência.
Os princípios eram tão claros que resolveu experimentar de imediato. A primeira sensação que teve foi a de sentir o seu corpo flutuar até se encontrar próximo do tecto da sala. Nessa fase sentia que metade do seu eu estava no seu corpo e metade espalhada no ambiente à sua volta. Expandiu mais a sua consciência, a sua presença, e percepcionou uma parte do mundo em que estava inserido. Viu centenas de pessoas, de casas, de paisagens...
Expandiu-se ainda mais e viu uma multidão de imagens, de rostos, de acontecimentos. Teve a sensação de que era toda a Terra.
O movimento de expansão continuou e as sensações tornaram-se mais difíceis de definir porque eram visões caleidoscópicas, muitas imagens de muitos mundos, de muitas realidades. A sua consciência estava espalhada por toda a existência.
Entretanto, o movimento prosseguia. O seu ser deixava-se ir, atraído cada vez mais para o todo, para o infinito... até que as formas já não eram distinguíveis. A sua percepção de conjunto assemelhava-se a um oceano de energia com um formato semelhante a uma galáxia de uma luz suave e de cor clara, na qual estava a essência de todas as coisas. Havia apenas um som que era a fusão de todos os sons e se assemelhava ao rumor longínquo de um oceano, porém constante, infinito e incessante. Havia apenas um sentimento, agradável, de paz, de totalidade, de suave plenitude. Mas o que mais caracterizava este sentimento era a ausência de ego e do seu eu, uma sensação impessoal de pertencer à consciência universal (seria Deus?). Havia apenas uma cor, apenas um som, apenas um sentimento.
Eoasell sentia-se como que uma gota de água a começar a mergulhar e a dissolver-se nesse oceano existencial. Sentia que era um indivíduo com a sua pequena consciência prestes a perder a sua individualidade para passar a fazer parte dessa consciência gigantesca e impessoal. Era como se estivesse próximo de deixar de ser. A existência absoluta afigurava-se-lhe semelhante à não existência. Ao mesmo tempo, aquele estádio, parecia ser o patamar máximo que qualquer ser poderia algum dia atingir: a eternidade, a paz absoluta. A imutabilidade resultante da soma de todas as mudanças.
Sentiu que estava a ir longe de mais e que, se avançasse apenas mais um pouco, o processo seria irreversível e jamais poderia recuar. E perderia também, para sempre, a sua consciência individual.
Tudo isto foram as suas impressões e reflexões realizadas apenas numa fracção de segundo, nessa fase intermédia em que a sua mente principiava a deixar de pensar e começava a diluir-se na essência da totalidade,. Mas foi o bastante: produziu-se imediatamente um movimento súbito de recuo, como um elástico. Sentiu-se atravessar rapidamente em sentido inverso os estados anteriores que o conduziam à sua individualidade e abriu os olhos num sobressalto: não estava na biblioteca. Encontrava-se deitado no seu quarto e ao seu lado, olhando para si, estava Quatl, boquiaberto.
“Onde
estava o livro?” – foi o primeiro pensamento de Eoasell. Procurou
desesperadamente lembrar-se do que lera. Por um momento tivera na mão todos os
segredos da existência e agora não se lembrava de quase nada. Apenas recordava
uma frase síntese, algo como “o que é preciso é ser o nada e manter o nada”...
uma frase semelhante à que lhe dissera o velho.
“O que aconteceu?”– perguntou Quatl –“Pensei que tinhas morrido. Já faz algum tempo que o teu corpo tem estado completamente inerte, como morto; tens estado sem respirar e o teu coração sem bater.”
Eoasell contou-lhe a sua experiência e o velho disse-lhe que possivelmente estivera muito próximo da morte física e que, se não tivesse recuado, o seu corpo não teria regressado à vida. Disse-lhe também que, provavelmente, acabara de desperdiçar uma das raras oportunidades que o ser humano tem de voltar a fundir-se com a Unidade e atingir assim a paz obtida pela libertação do ego e do sofrimento da consciência individual. Provavelmente, a possibilidade que lhe restava agora seria a de efectuar uma longa caminhada até ao dia em que, eventualmente, pudesse atingir um estado de pureza tal que o seu ego se desvanecesse e ele conseguisse, enfim, descansar na plenitude da “inexistência” dessa existência absoluta que ele havia percepcionado como um mar de energia.
Depois dessa experiência, tentou em vão recordar-se do que lera nesse estranho livro. De qualquer forma, sentia-se diferente, como se os seus horizontes interiores tivessem alargado e o alcance da sua mente se tivesse expandido.
A sua mente era agora mais rápida. A partir daí, lançou-se progressivamente numa exploração vertiginosa do alcance do seu próprio pensamento. Pôs tudo em causa, dissecou todas as ideias, pensou os seus próprios pensamentos. Reflectiu sobre a origem do mundo e do universo, sobre Deus e o objectivo da existência e descobriu que, ao ultrapassar os limites do pensamento, penetrara nas raias da loucura. Verificou que para atingir determinadas acepções tinha de pôr de lado a lógica e o senso comum e, quando as características do pensamento se diluíam e todo o raciocínio se tornava difuso, era preciso, mesmo assim, continuar, nem que fosse às cegas até encontrar, de novo, a luz.
Esse foi o início daquilo a que chamaria mais tarde “a batalha da loucura” – o atravessar do túnel do pensamento até sair, finalmente, pelo buraco oposto.
Era como atravessar um longo campo de areias movediças. Parar a meio seria afundar-se, seria enlouquecer. Era necessário avançar, avançar sempre. Os extremos tocavam-se e a luz deveria voltar a surgir e com ela o alcance do seu objectivo: a amplificação da consciência.
Eoasell não sabia que essa seria uma batalha que, ainda que entrecruzada com muitas outras, se estenderia por cerca de vinte anos...
A sua busca, todavia, continuou. Em breve realizou a primeira experiência consigo próprio, em que procurou transcender os limites do seu ser. Baseou-se numa ideia que vinha desenvolvendo há algum tempo atrás, fruto da sua pesquisa e reflexões. Pressentia em todos os seres uma mesma natureza intrínseca, uma força, uma energia ilimitada. O que cristalizava os seres humanos em formas tão limitadas de poder era uma espécie de fuligem que encobria essa energia luminosa que agora apenas ardia no âmago dos seres, reduzida à dimensão de uma centelha. Essa fuligem era constituída por todas as dúvidas e temores que castravam o infinito em cada um de nós.
Todas as nossas crenças nas impossibilidades disto e daquilo aprisionavam-nos em gaiolas existenciais. Assim como também todos os nossos condicionalismos: só estaríamos libertos e limpos quando ultrapassássemos os limites impostos pela nossa espécie, pelo nosso sexo, pela nossa idade, pela nossa nacionalidade, pela nossa educação, pela nossa realidade, pelo nosso ser.
Mas o que Eoasell não sabia ainda, era que para atingir a Liberdade Total do seu Ser teria que desaprender muitos dos dogmas que a sociedade dos homens lhe inculcara e que o encarceravam numa gaiola de dúvidas. E eram essas dúvidas que o impediam de aceder às suas capacidades infinitas.
E teria também de ultrapassar diversos fracassos,
decepções e períodos de desânimo ou aqueles que viriam a ser alguns dos seus
longos ‘Anos
Negros’...
...e ainda assim persistir, sempre, na sua escalada pelas escarpas que talvez o conduzissem à transmutação.
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
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Hoje era um dia muito especial para Íris, um momento aguardado com muita ansiedade.
Era hoje que Atlan iria, finalmente, mostrar-lhe algo que mencionara já por diversas vezes mas sempre com receio e talvez até com alguma vergonha de partilhar por ser algo tão íntimo.
Ao entrar no jardim olhou para o lago e viu que Atlan já lá estava, sentado no seu banco preferido com um espesso caderno entre as mãos.
Hoje Atlan deixa-la-ia ler algumas das primeiras páginas do seu “Diário das Transmutações”.
Ele chamava assim ao “diário” de experiências onde registara as diversas tentativas praticas que fizera para se transmutar.
– O que te vou mostrar, Íris, é apenas um livro de apontamentos onde anotei, de forma sintética, as ocorrências mais significativas processadas durante esses períodos de tempo em que ascendi a fases mais elevadas e poderosas do meu próprio ser – explicou-lhe Atlan enquanto folheava o caderno de capa dourada. E prosseguiu:
– É uma espécie de diário das abordagens que fiz à transmutação; muito embora, no início, eu quisesse apenas explorar toda aquela minha realidade interior que se projectava para além do meu estado mais normal e comum e me prometia mil e uma capacidades fantásticas!... A vanguarda da psicologia correlaciona, actualmente, alguns desses fenómenos com os chamados “estados alterados de consciência” nos quais possuímos uma maior facilidade para desencadear acções paranormais... talvez porque o nosso cepticismo e tendência para duvidar das nossas infinitas capacidades se encontram enfraquecidos nesses estados especiais de consciência. No entanto, Íris, para já, prefiro que leias apenas as minhas três experiências iniciais e que deixemos as outras para mais tarde...
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Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (1)
O Diário de Atlan – 1
A minha 1ª Abordagem:
Na minha primeira tentativa de alcançar um estado ontológico acima do estado comum, o meu objectivo principal era conseguir agir directamente na matéria através da minha consciência.
Parti da hipótese de que, se acreditasse totalmente que conseguiria actuar num objecto, suprimindo qualquer dúvida, o resultado seria efectivo. Baseava-me na leitura de registos em que determinados indivíduos, através do poder da fé, tinham realizado acções aparentemente impossíveis.
Tentar suprimir todas as dúvidas em que conseguiria actuar num objecto, sem lhe tocar fisicamente, revelou-se impossível. Havia sempre uma dúvida latente. A dúvida está relacionada com a lógica e o raciocínio, ambas actividades do consciente. Pensei então que deveria experimentar enfraquecer a actividade consciente. Nos sonhos acreditamos e conseguimos fazer coisas que nos parecem impossíveis quando acordados. Possivelmente porque o córtex cerebral durante o sono entra em repouso, reduzindo a actividade consciente.
Havia que cansar o córtex, provocando que entrasse em repouso mas sem que eu ficasse adormecido. Seria algo semelhante a entrar num estado de sono acordado.
Mantive-me sem dormir durante seis dias e seis noites.
Encontrava-me no sul do país, no Algarve, a trabalhar num Aparthotel durante o meu período de férias escolares que antecedia a entrada na universidade. Fazia o horário das 10h da noite às 5h da manhã no bar-discoteca do empreendimento. Passava o resto do tempo em constantes actividades para não adormecer.
Ao 4º dia senti que o meu pensamento racional e crítico era já muito ténue. Uma das primeiras sensações estranhas foi a de pressentir grande parte dos acontecimentos com minutos ou horas de antecedência. O meu corpo movia-se de um local para outro conduzido por vontades expontâneas da minha consciência mas sem pensar, sem reflectir. Ao conversar com algumas pessoas sentia que diversas ocorrências se tinham passado com elas e obtive as suas confirmações.
O meu intelecto parecia tornar-se, também, cada vez mais rápido e poderoso. Estive, nessa altura, em casa de uma família holandesa com a qual me comunicava em Inglês, por ignorar completamente a sua língua. Subitamente, todos os elementos da família irromperam numa discussão, falando holandês. Não sei explicar como mas, a dado momento, deparei comigo a compreender tudo o que diziam.
Na manhã do 5º dia, encontrava-me na recepção de um aldeamento turístico a olhar para uma placa onde estava escrito, em seis línguas, o seu regulamento. Sentia a minha mente a ler e a relacionar, com uma velocidade incrível, todas as frases e palavras nas diversas línguas e a aprender o significado das palavras que eu desconhecia. Nessa época, além de português, apenas falava um pouco de Francês e Inglês.
Mais tarde, assisti, durante cerca de trinta minutos, à transmissão televisiva do campeonato de salto e mergulho em piscina. Não tinha qualquer conhecimento prévio mas observei com toda a atenção os perigosos e difíceis saltos mortais, triplos mortais, parafusos, empranchados, etc. Em seguida, dirigi-me à piscina do Aparthotel e, da prancha mais elevada, executei razoavelmente bem, com uma habilidade que desconhecia, os mergulhos mais difíceis que tinha observado, pela primeira vez, momentos antes na televisão.
Junto à piscina havia um quiosque com livros em várias línguas estrangeiras (o Algarve é uma região turística frequentada por pessoas de diversas nacionalidades). Tinha começado, havia pouco, a falar com um grupo de rapazes holandeses que estavam admirados com os meus mergulhos. De repente, disse-lhes que, se quisesse, conseguiria ler e compreender a sua língua. Escolhi um livro em holandês da prateleira do quiosque e abri-o ao acaso.
Comecei a traduzi-lo rapidamente para Inglês. ‘A medida que eu lia eles verificavam que a tradução estava correcta. O que eu sentia na minha mente, quando lia, pareciam ser uma série de operações muito rápidas de análise a cada palavra, a cada frase, procurando semelhanças com palavras das línguas que eu conhecia, tentando encontrar o significado pelo contexto lendo mais à frente e voltando atrás, encontrando outros significados por intuição, decomposição das palavras, etc. Porém todas estas operações eram muito rápidas e não se notavam porque, como resultado final, eu traduzia, falando a uma velocidade normal.
Toda a minha hiperactividade deu lugar a muitas outras situações estranhas. Em dado momento, apeteceu-me dispor de um carro por algumas horas. Como a minha normal tendência para duvidar, estava já muito enfraquecida, pensei: “Vou por esta rua e ao voltar da esquina, vai passar-se algo que me proporcionará um carro.” Fui e não duvidei. Ao voltar da esquina, encontrei um conhecido da minha cidade, que estava no Algarve a passar férias. Eu conhecia-o mal mas, em poucas frases, fui persuasivo e ele pôs-me o carro à disposição.
Na tarde do 5º dia, o meu perfil psicológico era o seguinte: encontrava-me num estado de maravilhamento com tantos poderes novos e desconhecidos. Sentia-me , no entanto, com alguma dificuldade em me conduzir pelo desenrolar dos acontecimentos, já que tudo era muito rápido e quase não havia pensamentos pelo meio. Era muito estranho não pensar, ou pelo menos, não pensar da forma comum. Eu era impulsionado por um pensamento sem pensamentos. Quase como num sonho. E depois, como não duvidava, executava tudo o que essa espécie de consciência me ditava. Tinha desaparecido todo o pensamento aristotélico e cartesiano. Eu não pensava, eu agia; fruto dos impulsos de vontade de uma espécie de consciência mágica, não raciocinante. Por vezes, sentia que eu não conduzia as minhas acções, mas era conduzido. Fisicamente sentia-me bem e com energia; já não me sentia cansado e com sono como sucedera nos 3 primeiros dias.
Ao fim da tarde do 5º dia atrevi-me a tentar a acção directa da mente sobre a matéria. Isto era o que temia como mais difícil, no meu estado normal. As tentativas frustradas no passado, tinham-me enraizado fortes dúvidas de obter sucesso. Talvez ainda não completamente liberto delas, tentei algo que me pareceu mais fácil: Dentro do bar do hotel havia, em cada mesa, uma vela rodeada de uma campânula. Surpreendi-me com a facilidade com que conseguia reduzir a chama, quase apagando-a e, aumentá-la até se tornar uma chama grande.
No 6º dia, estava na esplanada do bar com algumas pessoas, quando passou próximo de nós um empregado, transportando uma bandeja cheia de copos. Disse aos meus conhecidos: “aqueles copos vão partir-se.” Penso que quis fazer com que a minha acção mental os partisse. Porém, eles não quebraram imediatamente. O empregado deu mais um passo e a bandeja caiu ao chão partindo os copos.