Emmanuel  de  Cériz

IGNIUS

 .O Mistério da Transmutação.

 

Cap - 4

 


FASE  III

POente

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

 tudo está interligado

    As III Fases

Nascente                Os Negros Anos Luz       Poente

 

A Grande Viagem da Existência:

 

A Epopeia do Ser

 

D ~~~~~~~> (H)

 

D+ <~~~~~~~ (H)

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

 

 

 

 

  

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

 

 

PORTA PARA A III FASE

 

 

Virá certamente um dia em que, ‘transmutar’, será uma actividade do quotidiano.

                                           Atlan

 

       A Teoria Quântica vem demonstrando que as partículas subatómicas

não são grãos  de matéria isolados mas padrões de probabilidade,

interconexões num tecido cósmico indivisível que inclui o observador humano

e a sua consciência.

      A Teoria da Relatividade veio ajudar a compreender a vida deste tecido

cósmico, ao revelar o seu carácter intrinsecamente dinâmico. A imagem

do universo como uma máquina foi superado por uma perspectiva de um

todo dinâmico e indivisível, cujas partes estão essencialmente interligadas e que

só podem ser compreendidas como padrões de um processo cósmico.

                                                                                                              Capra, 1982

 

“Para a grande maioria das partículas, que são instáveis e só vivem durante uma fracção mínima de segundo, a distinção entre o «real» e o «fantasma» fica enevoada. Quem poderá dizer, por exemplo, que uma eventual partícula y, que decai num milésimo de bilionésimo de bilionésimo de segundo, é real, enquanto um par electrão-positrão, pago pelo ‘banco’ de Heisenberg e que tem uma duração semelhante, é apenas um fantasma?

“Há anos atrás, um físico americano, Geoffrey Chew, comparou esta dança agitada de sombrias transmutações à democracia. Não podemos pegar uma partícula e dizer que é a entidade tal e tal. Em  vez disso, devemos olhar cada partícula como sendo feita de algum modo de todas as outras num interminável ‘estranho arco de recorrência’. Nenhuma partícula é mais elementar do que outra.

“Tornar-se-á evidente que há um forte sabor holista nos aspectos quânticos da natureza da matéria: níveis entrelaçados de descrição, em que tudo é, de certa forma, feito de tudo o resto e ainda assim, apresentando uma hierarquia de estrutura. É dentro desta totalidade omni-englobante que os físicos prosseguem a demanda dos últimos constituintes da matéria e da força última e unificada.”                                                                                                             Paul Davies

 

 

O transmutalismo combate os elementos fixos de qualquer ‘panorama’ existencial, quer se apresentem como figuras, seres, formas, cores e luz, quer  se apresentem como enquadramentos espaciais e temporais ou ainda como conteúdos semânticos finitos.  Contesta assim as identidades únicas desses elementos e combate os seus limites, as suas características fixas ou rígidas e os seus únicos enquadramentos espaço-temporais.

 

Em contrapartida, estimula e enfatiza a transformação e transmutação (omnipresente) de todos esses elementos.

Também encoraja a transmutação de uns elementos noutros e a troca das suas identidades. Como por exemplo: numa das projecções multidimensionais de uma obra, a mulher que acaricia a planta pode ser representada como a própria planta que acaricia. Noutra projecção podem, inclusive, trocar de identidades: a mulher é agora a planta e a planta a mulher.

[A = A    e    A ¹ A] . Qualquer coisa é ela própria e é diferente de si mesma – axioma fundamental do transmutalismo. A mulher é igual a si própria e tem a sua identidade de mulher, e é diferente de si mesma, possuindo projecções de todas as identidades diferentes da sua. Este conjunto imenso de identidades é que constitui a identidade global, total e completa (da mulher neste caso). A identidade é semelhante a uma nuvem de possibilidades  na qual a identidade mulher  é uma área mais densa de probabilidades. Um pouco semelhante à nuvem de probabilidades que é um electrão.

A possibilidade da identidade global mulher deslocar a sua zona densa dentro da nuvem de possibilidades para adquirir a identidade planta só depende da sua energia.

 Esta é a ideia básica da transmutação.

 

A atitude transmutalista perante uma cena ou situação é a de  representar os elementos que a compõe nos seus diferentes conteúdos e significados, nas suas diversas identidades mais actuantes ou preponderantes (nessa situação), nas suas várias formas ou projecções, nos seus diferentes tempos mais significativos, nas suas diversas cores, envolvências da luz e nos seus diversos enquadramentos espaciais.

Só esse conjunto hologramático de multipossibilidades e que é multidimensional, multitemporal, multiespacial e probabilístico é uma tradução artística aproximada daquilo que é a complexidade de uma situação real.

Há muita coisa que os olhos não vêem. Precisamente por isso, o artista tem de socorrer-se da sua metaconsciência.

 

É uma arte dinâmica. Porque tudo é movimento, transição, transformação.

É uma arte multidimensional. Porque tudo é e não é. Tudo contém em si todas as possibilidades de ser outras coisas, de apresentar outras cores, de assumir diferentes formas, de ser em diferentes tempos.

 

Como representar da forma mais completa e abrangente uma situação ou uma cena presenciada pelo artista?

Como transportá-la para uma tela?

 

Para obter o rigor da imagem superficial basta fotografá-la.

 

Mas ficaram de fora todas essas projecções e envolvências que são os vórtices dinâmicos e multidimensionais que constituem a VIDA da cena observada. A biosfera desse pequeno mundo. Poderíamos chamar-lhe a “alma” dessa situação.

A cópia dessa imagem por mais fiel que fosse não bastaria. Não passaria de um mimo. A cena teria sido mimetizada.

 

É necessária uma meta-Arte para captá-la. E o intelecto é insuficiente para o fazer.

 

Uma cena em que decorre uma situação protagonizada por alguns intervenientes é sempre demasiado complexa se a presenciarmos dentro de um perspectiva holista.

Entre cada interveniente há uma complexidade de projecções e das suas intercepções. Essas projecções interagem entre si com diversos fluxos e transacções de energia.

Cada elemento participante não influi apenas com ele próprio nos demais elementos, mas também com todas as suas projecções latentes e envolventes. Com toda a sua nuvem de possibilidades (lembra-me uma espécie de lagarto que, para assustar o adversário, incha e expande-se todo em foles e cores).

Cada elemento de uma cena, seja ele uma figura humana, uma árvore, um objecto, a atmosfera envolvente, a temperatura, o solo, o céu, uma folha caída no chão, um animal, o relvado próximo, os sons em volta, o meio envolvente mais afastado, etc. – estão, todos eles, a interagir com os demais. Visivelmente ou não.

A interacção de cada um destes elementos não é apenas aquela que é aparente, à qual chamamos visível. Cada elemento projecta de si o que é e também tudo aquilo que já foi, que virá a ser e mesmo tudo aquilo que não é.

Mas isso não chega ainda. Cada elemento é, em qualquer instante, algo multidimensional. Um aglomerado, uma nuvem de tudo aquilo que não é.

Aquilo que nos parece ser o que ele é, não passa da sua forma mais “pesada”, mais densa, ou mais estável naquele tempo, naquele espaço, naquela situação.

Mas aquilo que ele é, realmente, é uma nuvem de possibilidades de elementos ou seres alternativos.

A sua forma visível é uma região nebulosa de probabilidades, envolvida por uma nuvem de possibilidades.

Essa nuvem de possibilidades alternativas em redor da zona mais densa constitui o seu conjunto de projecções.

 

O princípio de incerteza de Heisenberg levou-nos a admitir que o electrão não é, própriamente, uma partícula, mas sim uma nuvem de probabilidades.

Diversos físicos trabalharam na Teoria do Campo Unificado. Tentaram estender o comportamento das partículas atómicas a toda a realidade.

 

A nossa percepção limita-nos quanto à visualização da natureza total das coisas e dos fenómenos.

Quando um elemento de uma situação (mais tarde enquadrado como elemento de uma composição artística) interage com os outros elementos dessa situação, não é apenas o seu núcleo denso a fazê-lo, são todas as suas projecções, isto é, a parte menos densa da nuvem.

E os outros elementos actuam do mesmo modo. É um entrecruzar de projecções, fluxos, trocas energéticas e misturas, muito complexo. É todo este conjunto de forças dinâmicas, que geram aquela situação como sendo um organismo vivo, animado de uma alma própria.

 

Depois, todas estas interacções entre os diversos elementos, se cruzam, misturam, transformam, transmutam e se conjugam em diversos fluxos de campo. Apresentam características holistas, fluxos e vórtices próprios que, por sua vez, transmitem o seu feedback aos elementos intervenientes.

 

Só a metaconsciência poderá auxiliar o artista a executar este tipo de representação.

Ela não é total.

Mas é a que mais se aproxima, no panorama actual, de uma representação completa.

Rejeita limites, é multidimensional, hologramática e Caleidoscópica.

 

 

Outro elemento que deve presidir à génese é uma clareza de espírito capaz de transparecer para a tela, através de pinceladas perfeitamente aleatórias, a linguagem existencial.  Entendo o aleatório não como sinónimo de acaso mas sim como a expressão quase indecifrável da existência. Uma linguagem

multi-dimensional, caleidoscópica.

 

Na medida em que não é uma linguagem comum, deveremos considerar essa expressão da natureza como uma infra-linguagem ou como uma meta-linguagem?

 

Poderíamos tender a classificá-la de infra-linguagem já que, devido à nossa percepção e consciência limitadas, se assemelha a um “ruído” de fundo.  “Ruído” semelhante ao écran de uma televisão que não recebe sinal de nenhuma emissora. “Ruído” semelhante ao ruído de fundo do universo captado pelos radiotelescópios e que corresponde à recepção de todas as ondas electromagnéticas e partículas que nos chegam, vindas do espaço. “Ruído” também semelhante ao da configuração com que caem uma porção de pequenas folhas de chá lançadas à sorte e na qual alguns adivinhos chineses procuravam ver o futuro ou descortinar os tramites de alguma situação.

Tudo está interligado e qualquer uma dessas configurações acidentais é uma rosto, uma expressão do mega-corpo existencial, que  contém em si mil significados, mil interpretações. De um qualquer desses “ruídos” podemos fazer um número ilimitado de leituras. É isso que constitui o aspecto singular desta “linguagem” aleatória: é não determinista, é não limitada e não limitante. Possivelmente, se ampliássemos ou reduzíssemos  uma das nossas línguas humanas ao ponto de que cada texto, cada frase, cada palavra traduzisse ou pudesse traduzir uma imensidade de significados diferentes e possibilitasse assim uma “infinidade” de interpretações e leituras, essa língua redundaria em algo semelhante a um ruído aleatório – aparentemente casual e sem sentido para a nossa mente habituada ao unidimensionalismo e ao determinismo da definição. Cada palavra ampliar-se-ia até à enormidade para poder conter em si todas as palavras e os significados que lhe estão associados ou, então, reduzir-se-ia até pouco mais de um ponto para poder ser o menos definidora possível e, assim, castrar minimamente outros significados diferentes para essa mesma palavra – o que se assemelha bastante à multidão de “pontos” que constituem o ruído de fundo cósmico.

Isto é, não estamos habituados a lidar com sistemas multi-significantes. Num desses sistemas cada um dos seus elementos (palavras, objectos ou seres) conteria em si mesmo não só o próprio elemento ou significado mas também todos os outros elementos ou significados diferentes sob a forma de realidades menos “pesadas” ou menos prováveis. Mas igualmente possíveis, contingentes e coexistentes. Da não limitação. Para que cada coisa possa ser não-limitada ela necessita conter em si tudo aquilo que não é, tudo aquilo que é diferente de si. Necessita ser tudo. O que conduz de novo à ideia de completar o axioma matemático da identidade (A=A)  com A=A Ù  A¹A.

Não só um elemento precisa conter em si todos os outros elementos, mas também todas as fases temporais de si próprio.

Não compreendo como é que o universo é dinâmico, e não estático, se assim não for.

E o que é esta omniexistência, esta omniontologia, esta multiplicidade – de um elemento ser, ao mesmo tempo, todos os [outros] elementos?

Na perspectiva da Física, sabemos actualmente, através da célebre equação E=mc2, que a matéria é energia convertida em massa e que, portanto, todos os elementos partilham uma forma, essência ou natureza comum – a de serem energia.

A energia tem uma natureza indefinida e é extremamente versátil. Uma forma de energia é passível de se transformar em qualquer outra: energia térmica em energia cinética, energia cinética em energia eléctrica, ou  magnética, e vice-versa.

A massa pode transformar-se em energia e a energia em massa, isto é, por trás dos elementos materiais há toda uma versatilidade e multiplicidade potencial.

A transmutação dos elementos passa por aí.

 

Depois de toda esta reflexão parece-me mais adequado classificar a linguagem aleatória existencial não como um ruído, não como uma infra-linguagem, mas sim como uma meta-linguagem pois ultrapassa o conceito de linguagem.

 

E, possivelmente, o transmutalismo não será própriamente arte. Talvez deva ser compreendido como fazendo parte de uma meta-Arte.

 

A semântica do aleatório é a base da arte transmutalista.

É claro que quanto mais puro for esse ruído, isto é, quanto menor for a intervenção do consciente, mais puras e sublimes serão as formas plásticas resultantes...

 

Uma grande sensibilidade e um vazio interior devem estar presentes, no artista, durante o início da pintura, para permitir essa expressão aleatória. Deve ser a “consciência universal” a pintar por nós. Devemos deixar fluir os movimentos que vão impregnando o quadro de manchas e cores sem os filtrar por nenhum juízo consciente. O artista deve colocar-se mais na posição de parteiro da existência do que de artesão. Deve funcionar como um canal que ajuda a nascer, na tela, a perfeição da forma, da cor e da mensagem de que só o Absoluto é capaz. Mais tarde, a meio ou na parte final da execução da obra, descobriremos como essas formas aleatórias se enquadram fazendo emergir um sentido.

 

(da Arte Transmutalista)

 


 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

 

Dona Chama

 

            Na minha caixa de correio estava um postal.

            Mostrava uma imagem microscópica muito ampliada.

            Via-se uma massa globular de cor esbranquiçada, à volta da qual flutuavam pequenos discos rosados.

            Numa pequenina legenda, em baixo, lia-se:

            “Anticorpos do sangue humano envolvendo um corpo estranho”.

            Voltei o postal e li:

 

  D. Chama

 

  Vamos todos levar D. Chama a dançar

                     D. Chama sofreu muito. Viveu muitos anos aprisionada num mundo que não era o seu.

                     D. Chama, anteriormente bela, mirrou. Encolheu e feneceu após tantos anos de cárcere. O mundo isolou-a, privando-a de amor, como faz um corpo ao isolar um vírus, envolvendo-o de anticorpos. Mas a chama de D. Chama não se extinguiu por completo. Ela hoje faz oitenta anos e precisa apenas do nosso amor para reviver e libertar toda a juventude encarcerada no seu corpo e no seu espírito.

                     Levemos D. Chama a dançar.

                     Envolvamo-la com tudo aquilo que o nosso amor pode dar. Sem limites nem fronteiras. Compensemo-la por todos os anos em que o mundo se fechou para ela... apenas por ter sido arauta de uma nova era. Levemo-la a dançar e devolvamo-lhe a juventude. Ressuscitemos o seu corpo mirrado num corpo frondoso  e esbelto.

                     Vai ser um prazer dançar com D. Chama.

                     Retiremos a fuligem que encobre a sua beleza. A fuligem que o mundo lhe colocou ano após ano, de insucessos, de bloqueios.

                     Quando o enorme organismo, que é o mundo, se transmutar, ele próprio, não mais enterrará sob uma chuva de anticorpos, corpos como o de D. Chama.

                     Levemos D. Chama a bailar...

                    

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

 

 Reflexivo

 

predisposição’ – acto de predispor ou de se predispor; tendência natural para; vocação.

predispor’ – dispor antecipadamente; preparar de antemão; preparar-se com tempo.

Dicionário da língua portuguesa.

 

Quetzal estava imerso em reflexões.

Lembrava-se também do sonho que tivera na noite passada.

Encontrara um sábio que conhecera alguns meses atrás, na vida real, que lhe dissera:

--Talvez não possas mudar os acontecimentos, mas podes, certamente, mudar a predisposição.

-- A predisposição? – perguntara Quetzal.

-- Sim, a tua predisposição. Deixa correr.

“Fazia sentido”, pensou. “Afinal porquê continuar a tentar contrariar o curso de acontecimentos desfavoráveis? De nada servia, pelo menos no seu caso...”

 

...E vindos da janela ampla, os raios do poente banhavam de morno o quarto de Quetzal que se sentia adormecer lentamente, embalado pelo som das ondas e das cogitações sobre os segredos da transmutação...

“A matéria é energia condensada e embrulhada. Mil vezes dobrada”.

“O que poderia levar a energia a concentrar-se até se tornar em matéria?”

“Curiosamente”, reflectia com sonolência, “toda a ciência se debruçara sempre sobre a transformação da matéria em energia e não no processo inverso...”

O sol já se tinha deitado, mas não antes de incendiar o céu por trás dos montes alcantilados que ‘rocheavam’ o mar.

“O que faria a energia transformar-se em matéria?... O que será realmente a matéria?...”

E espalhado como ouro fundido sobre a tranquilidade da sua cama, Quetzal contemplava, através da grande janela aberta de par em par, as nuvens fúlgidas que divagavam pelo céu rubro.

E também ele divagava...

“Será que a energia possui uma espécie de “gravidade”?”

“E que a concentração de uma grande quantidade de energia faria com que ela implodisse, entrando em colapso e condensando-se ase tornar em pequenas partículas materiais? Mmm...”, não lhe parecia.

“Mas, e se fosse assim, então o que é que poderia provocar uma grande concentração de energia?”

“Será que é a gravidade que condensa a energia em matéria?...”

E o seu olhar vagueava, sonolento, pelo céu ígneo...

...e chegavam até ele, vindos da janela, os aromas frescos da maresia daquele verão morno... que o adormeciam em vagas tranquilas.

“Teria a ver com vibração? As escalas vibratórias diminuíam com a densidade das substâncias...”

“Tudo é vibração... e quanto menos densos são os corpos mais vibram... como a luz. Tudo tem um movimento de oscilação. Quanto mais próximo da energia e mais distante da matéria, maior é a vibração. E talvez corpos com estados vibratórios diferentes se interpenetrem, como se pertencessem a dimensões diferentes...  será isso que são ‘os fantasmas’?”

Mas o som hipnótico do mar rumorejante embalava-o cada vez mais profundamente, ali, no aconchego da sua cama...

...prometendo mergulha-lo no oceano do oblívio mas também de todos os segredos escondidos.

E a cama  era a  sua nuvem alada que o transportava aos

céus do esquecimento.

 

...E assim adormecera.

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

 

 

O Diário de Atlan – 6

 

 

 

Condições  e  fases essenciais  para  a  transmutação

    

Com base em toda a investigação e experiências que realizei penso poder distinguir certas condições e fases essenciais no percurso orientado para a transmutação pessoal:

 

Antes que tudo deverá existir uma intenção, uma volição ou, talvez melhor, um intento subjacente de realizar a transmutação. Este intento, mesmo que diluído ao longo de fases posteriores é determinante na impressão de uma direcção e de um sentido nos movimentos interiores do indivíduo. É criada assim uma dinâmica orientada para a abolição ou eliminação dos limites do ser. Passa a existir uma dinâmica do ser para a transmutação de si próprio noutro tipo de ser (que  aboliu os seus limites). [A transmutação incorpora uma alternativa à morte como o fim a atingir].

A natureza do ser passa, assim, de rígida a plástica. E a dinâmica desencadeada pelo intento realiza na natureza plástica do ser uma série de alongamentos, deformações e diluições conducentes à sua completa transformação.

 

A segunda fase é uma fase de limpeza. É necessário limpar tudo o que aprendemos e em que acreditamos. Cada crença impede outras crenças [A crença de que somos criaturas terrestres castra-nos a crença de que podemos voar. A crença de que apenas os objectos mais leves que o ar podiam voar impediu, no passado, a crença de que aviões mais pesados que o ar pudessem fazê-lo]. Por outras palavras: as crenças são as maiores fomentadoras das dúvidas. As dúvidas são o principal impeditivo à realização das nossas potencialidades paranormais.

[...]

 

Síntese:

 

0. Condição inicial: O intento para se transmutar.

 

1. Limpar a fuligem que encobre a nossa essência ou natureza luminosa. Isto é, desaprender todo o conhecimento imbuído de conceitos de impossíveis e da “consciência” dos nossos limites.

 

2. Entrar num estado de relaxe mental e atenuação da actividade consciente principalmente do raciocínio e da dúvida.

 

3. Dissolver o nosso eu e viver em fusão com o todo. Adquirir fluidez. Tomada de consciência de tipo universal: de nós como partículas integradas no todo. O indivíduo e o todo são um e devem viver em uníssono.

Atenuam-se o egocentrismo e o egoísmo e em contrapartida desenvolvem-se o heliocentrismo e a oblatividade.

 ·A prática da meditação transcendental, da contemplação e da livre dança ou expressão corporal poderão intensificar a dissolução do eu e a obtenção de espaço vazio interior que se prestará a albergar energia.

 

4. A ausência / atenuação de   · diálogo interior

                                      · de pensamentos vincados

                            · do conflito interno   

· da dúvida (habitante quase  omnipresente do       mundo dos  pensamentos)

e          · a atitude de desprendimento adquirida nas fases anteriores criaram (ou esvaziaram) um espaço interior [onde anteriormente não havia espaço]. Esta foi a condição que permitiu que esse espaço comece, automaticamente, a ser preenchido por toda a energia anteriormente dissipada pelos pensamentos, conflito e diálogo interno.

 

5. Essa libertação das correntes da dúvida e da cápsula apertada do nosso eu proporcionam-nos Alegria que catalisa mais Energia [suponho que a Alegria é o maior catalisador de Energia interior].

6. Acções paranormais e percepções extrasensoriais ocorrem espontaneamente.

 

7. Aumenta a Alegria e a autoconfiança que geram mais Energia.

 

8. Podem ser usados vários processos para acumulação de

    Energia:

- Estimulação da Kundalini   

- Meditação Transcendental

- Contemplação                       

- Fusão com o Todo

- Anulação do Eu                  

- Absorção da energia solar

- Alinhamento da informação mental       

- Alegria causada pelo Amor

- Expressão Corporal e exercitação física   

- ‘Imaginação actuante’

- ‘Não-fazeres’ diários

- Estado de indiferença ou abandono

9. Passa-se a um novo estado de ser de elevada energia.

 

10. Aumenta a distância relativa aos outros elementos da sociedade

 

11. Entra-se numa fase de risco. Forte tendência para o descontrole Energético, Emocional, Mental e Físico.

 

12. Deve-se procurar estabilizar e ultrapassar esta fase.

      Talvez o seguinte ajude: 

    - É preciso saber parar.

    - Todas as acções empreendidas deverão possuir um sentido: o da prestação de um serviço ao Todo e a compartilhação com as outras  partes desse Todo (os nossos semelhantes, os animais, as plantas, os  minerais, etc.).

Esta poderá ser a fase de eliminação dos indivíduos que não estão eticamente preparados para ascender a um estado superior de controlo.

Penso que só ultrapassará esta fase o indivíduo com ausência de conflito interno, sem medos, sem dúvidas e sem ódios.

 

13. Para evitar o efeito reversível (de regressar, mais cedo ou mais tarde, ao “estado comum de ser”) deve-se deixar a energia acumular sem a desperdiçar em acções paranormais ou outro tipo de esforços que requeiram muita energia.

A acumulação de energia deve aumentar até ao ponto em que se processe uma transformação estrutural do próprio ser.

Paralelamente a consciência ter-se-á expandido e aumentado o controle sobre o seu ser até orientar toda a energia, a produzir essa alteração estrutural, transmutando-se assim num novo tipo de ser.

 

A  energia tem a capacidade de se auto-organizar  e, possivelmente, quando atingida uma concentração suficientemente elevada num indivíduo, de modificar a sua composição estrutural e de o transmutar.

 

Recapitulando:

· Intento de transmutação

· Limpeza de conceitos limitantes

· Dissolução do Eu e Fusão com o Todo

· Manejar o mecanismo de anulação do ser

· Surge o espaço vazio no qual se vai acumular  energia

· Gera-se Alegria que gera energia

· Ocorrem acções paranormais espontâneas

· Aumenta a Alegria e a Energia

· Passa-se a um novo estado de ser (de alta energia)

· Distancia e rotura com outros elementos da sociedade

· Fase de Risco (tendência para descontrole)

· Procurar ultrapassa-la até alcançar uma fase  estável

· Contenção da energia para produzir alteração

    estrutural do próprio ser, isto é, transmutação.

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

 

As Novas Concepções

 

 

Continuando o texto sobre “A Semântica das Palavras” no início do livro, faço agora uma reunião, mais alargada, das novas concepções aqui desenvolvidas resultantes de pesquisas próprias em áreas muito diversas.

 

 

Novas Concepções, Hipóteses e Teorias:

 

Transmutalismo

Transmorfose

Actuância

Viactuar

Transciência

MetaH

Transmutal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hiperconsciência

Metaconsciência

Transconsciência

E-Id

q-Id, q-Ids

Glupáviz

novos axiomas matemáticos

cálculo transmutacional

princípio da certeza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

  

 
  

 

 


 

Fluir

 

 

 

E ele estivera lá...

...onde era sempre pôr do sol.

 

 

 

            Fluir.

            Deixar o som fluir. Directo da alma. Sem filtros.

            Deixar as ideias deslizar/slide/glisser pela mão. Mal ou bem. Sem julgamentos, sem censuras.

            Mal ou bem, bem ou mal são sempre juízos.

            O importante é que as ideias fluam, livres.

            Que encham essas páginas brancas da essência do teu ser. Que transmitam a maior parte do teu conteúdo.

            Como o esvoaçar das gaivotas brancas no farfalhar atafulhado das manhãs. Encher o espaço como elas ¾ num clarão, num instante.

            Num conteúdo de inundação.


 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

O estado de Indiferença

  

Não desejes nada.

< ou deseja apenas o inatingível >

Mas trabalha como o fazem

aqueles que desejam.

 

Porque o “estado de abandono”,

“de Indiferença”, é atingido unicamente

quando te transmutares em Amor.

Sem seres, tu próprio, o Amor,

tudo são ficções, tudo são ilusões.

 

 Só o Amor te libertará

da prisão existencial

que és tu próprio e o teu ego...

Só o amor te libertará

de todos os medos, receios e temores

que te levam, desesperadamente,

a protegê-lo e a defende-lo.

  

O Amor é viveres para o todo,

é seres o próprio todo.

É abandonares,

libertares-te do teu pequeno ser

para seres algo bem maior: a totalidade.

 

 

Sem seres Amor,

não há Transmutação.

 

Quando fores,

tu próprio,

o Amor,

então,

se assim escolheres,

poderás facilmente transmutares-te.

E serás ilimitado...

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (4)


 

...O  AMOR

 

“Cometi o vício de quem fala em virtude: a intolerância manifestou-se. E com ela a raiva, a fúria, a exasperação.

“Não basta falar de preconceitos.

“A transformação será no mais íntimo da nossa própria natureza. Só assim os sentimentos de raiva morrerão por si mesmos. E as nossas almas serão mais suaves – não porque colocaram a agressividade para fora, mas porque colocaram o Amor para dentro.

“O poder da vontade não nos transforma.

“O tempo não nos transforma.

“O Amor transforma.

“Melhor não viver que não Amar.”                Henry Drummond

 

Ele era um ‘grande’ e ‘poderoso’ rei

que levava a cabo uma ‘solene’ e ‘importante’ missão.

E atrás de si, os seus exércitos irrompiam,

imparáveis e obstinados, pelas inóspitas planícies...

E todos lhe abriam caminho.

 

Mas atravessavam-se-lhe no seu espírito,

algumas preocupações inquietantes:

     o sucesso ou insucesso da sua expedição;

     as dificuldades em dirigir o reino;

     e a exaustão física e o stress

                devidos às noites perdidas:

o que o fazia estar zangado consigo próprio por, mais uma vez, ter perdido

a sua autodisciplina... e não ter descansado

convenientemente.

Sentia-se, assim, em fraca forma

para ‘desempenhar’ uma batalha.

 

Mas havia outras preocupações de fundo.

E talvez fossem essas as que, verdadeiramente,

o impediam de ser ‘feliz’, provocando-lhe súbitos desinteresses pela vida:

       estava a envelhecer, a perder o seu vigor e beleza;

sentia uma enorme carência,

porque não encontrara ainda a ‘mulher ideal’;

e também,

como não se sentia ainda realizado e reconhecido, temia nunca vir a sê-lo.

 

Ele acreditava ser um daqueles poucos reis

que vivem para o seu povo

e para o todo.

E o seu lema era: “pelo bem comum!”

 

Porém, enquanto atravessava vales e planícies,

enquanto sobrepujava serras e montanhas,

eram estas preocupações – afinal as do seu próprio ego –

que lhe atravessavam o espírito...

 

Mas por fim,

farto de tanta preocupação;

farto de tanta carência e dor;

carência das tantas coisas

que possuem as ‘pequenas’ pessoas

e que as fazem felizes;

mergulhou num estado de suposta Indiferença.

 

Sentiu, subitamente, o sabor

de algo que há muito almejava:

o ‘estado de Indiferença’.

Algo que considerava fundamental

e superior a todas as coisas...

“Já nada me afecta”, pensou indiferente, “pode até

o céu cair-me em cima que eu pouco me importo”.

 

E, convencido de que tinha afinal extraído,

conquistado,

alguma luz(!)...

...dos tortuosos, áridos, frustrantes e

longos anos negros que ainda o atolavam —

os Negros anos Luz — brandiu essa luz

bem alto, como um facho libertador e imune:

à angústia e à falta de amor

que o mantinham sepultado,

há tantos anos, para a vida.

 

“Talvez tenha valido a pena afinal, toda aquela escuridão por que passei, se foi para conquistar a luz da imunidade ao sofrimento e às intempéries.”

“Agora, nada me poderá afectar...”

“Tudo me é indiferente!”

 

E foi ainda mais obstinado,

Mas também mais Frio,

Impassível e Impessoal,

que atravessou os campos,

daquele mundo morto,

rumo aos seus ‘vivos’ objectivos.

E foi aí, que um pequeno ser

se atravessou no seu caminho.

E arrastava-se vagarosamente e debilitado.

 

O rei ficou incomodado porque não tinha ‘Tempo’,