Emmanuel de Cériz
IGNIUS
.O Mistério da Transmutação.
Cap - 6
Aleathor saiu apressadamente do edifício e esbarrou em Íris. Ali, mesmo à porta do Instituto de Estudos Quânticos.
— Íris! Que feliz coincidência. Ainda há pouco pensei em ti!
— “Coincidência”?... que giro ouvir essa palavra da tua boca! Tu, um estudioso do aleatório e das coincidências...
— É mesmo, Íris!... apanhaste-me em flagrante!
— Não te preocupes... é claro que estamos todos ainda muito imbuídos da linguagem e da filosofia do velho mundo...
— Sim, e ‘coincidência’ sempre foi uma palavra tão usada para definir acontecimentos... como era? ah, sim – “frutos de mero acaso”! — exclamou Aleathor em tom reflexivo.
— E pelos vistos não há mesmo coincidências, não é Aleathor? — interrogou Íris fitando-o com um olhar maroto.
— Sim, na verdade, cada vez me convenço mais de que está tudo interligado.
— E tens avançado muito nas tuas investigações?
— Sim, bastante. Ainda hoje combinei passar a tarde com Kérík para estudar a sua forma de pintar o aleatório... Mas, já que estás aqui, porque não vamos tomar um chá? Conheço um local aqui perto que tem uns bolinhos de canela!... — disse Aleathor esfregando as mãos de prazer ao imaginar a iguaria.
— Excelente ideia! Adoro bolos de canela!
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6)
A pequenina e acolhedora casa de chá ficava apenas a dois quarteirões, em frente ao frondoso jardim do lago verde. Tinha um nome pitoresco. Chamava-se “La Palissade”.
“Oh, ainda por cima com música de ‘Oskorri’ a tocar!...”, pensava Íris enquanto entrava naquele ambiente forrado a cores pastéis, “divino! simplesmente inacreditável...”
— E então, Íris, conta-me: como vai o teu “Princípio da Certeza”?
— Ah, o princípio da certeza... cada vez com mais possibilidades, mas cada vez também com uma maior quantidade de hipóteses a testar... mas vai bem. Sabes, Aleathor, vou fazer um pequeno retiro para a minha cabana da floresta. Inspira-me trabalhar lá!... é lá que irei prosseguir a minha pesquisa.
— Sentes uma conexão com a natureza cada vez maior, não é?
— Sim. Principalmente com algo que está subjacente à própria natureza... mas que é anterior a ela. E que emerge através dela.
— O quê, Íris? — perguntou Aleathor com uma súbita curiosidade.
—
Não sei bem... sinto que é algo anterior a tudo. Até ao próprio Deus e
aos deuses... Sinto que é algo que tem uma natureza selvagem e indomada.
Primordial e antiquíssima. Mas que ainda existe!...
— Alguma espécie de consciência?
— Não será bem isso. Talvez antes uma espécie de “consciência” amorfa, ou uma “consciência inconsciente”. Algo que tem a ver com o Caos. Um Caos primordial, subjacente a todas as coisas...
— Caos?
— Sim... Bem, já vi que isso te “toca”!...
— Claro que sim!... Poderá ser isso a fonte da aleatoriedade? Poderá ser isso que está na base da dinâmica aleatória presente no “ruído” do tecido da existência? Poderá ser essa a fonte de todos os fenómenos aleatórios?... que se processam por toda a parte e a todo o momento no universo? — o interesse de Aleathor tinha sido subitamente despoletado. Há vários anos que a sua maior ambição era descobrir o segredo que estava por detrás da aparente casualidade imanente a tudo. E vinha dedicando as suas pesquisas ao desvendar do “Como” e do “Porquê” do factor aleatório da existência. Para ele, o âmago de todas as coisas residia aí.
— Talvez... talvez se relacione com o aleatório.
Talvez isso seja a própria estrutura de um tipo de consciência bem diferente. Bem diferente daquilo que estamos habituados a considerar como consciência.
— ...talvez uma consciência constituída por elementos aleatórios — completou Aleathor reflectindo — uma super estrutura consciente, constituída por estruturas inconscientes, aleatórias... O que é, de resto, concordante com certas inferências derivadas da Teoria do Caos: embora o Caos seja geralmente encarado em termos das limitações que implica – tais como a falta de previsibilidade de um sistema – a natureza, todavia, deve empregar o caos construtivamente...
...Através da amplificação de pequenas flutuações, a natureza pode proporcionar aos sistemas naturais o acesso à inovação.
Uma presa escapando ao ataque de um predador poderá usar um controle de voo aleatório como elemento de surpresa para evitar a captura.
Evolução biológica exige variação genética; o caos providencia um meio de estruturar as mudanças aleatórias, fornecendo com isso a possibilidade de colocar a variabilidade sob controle evolucionário.
Mesmo o processo de progressão intelectual se baseia na injecção de novas ideias , e em novas formas de conectar ideias antigas. Os indivíduos que possuem grande criatividade inata devem possuir um processo caótico subjacente que amplifica, selectivamente, pequenas flutuações aleatórias e as molda em macroscópicos e coerentes esquemas mentais que são experimentados como pensamentos.
Em certos casos, estes pensamentos podem ser decisões, ou aquilo que é percebido como o exercício da vontade, do querer, do arbítrio.
Através deste prisma, é o Caos que fornece um mecanismo que permite o livre arbítrio dentro de um mundo governado por leis determinísticas...
...Mas, Íris, como obtiveste a ideia de que esse “algo”, que sentes ser subjacente e anterior à própria natureza, possa tratar-se de um tipo de consciência, ainda que muito diferente da nossa?
— Não sei bem. Sinto-o intuitivamente. Principalmente depois de algumas experiências pessoais que me fizeram entrar em conexão com o âmago da natureza.
— És fortemente intuitiva!... e sentiste mais alguma coisa?
— Sim, senti que é como uma espécie de força. Algo com uma tonalidade acastanhada indefinida. Senti que é uma “consciência” pouco interventiva. Tem uma natureza mais passiva que activa... e, contudo, age. Possui uma dinâmica: actua, emerge. E, apesar de me parecer tratar-se de uma consciência amorfa, sinto que nada lhe “escapa”, que nada lhe é incompreensível. Mesmo consciências como a nossa.
— Fala-me dessas experiências.
— Bem, vou referir-te apenas uma:
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6)
Ocorreu numa fase em que eu estava num estado de alta energia pessoal. Apesar disso, naquele momento estava muito fatigada. E o sol já se tinha posto...
Como me encontrava na orla de uma pequena floresta, deixei-me conduzir por uma subtil intuição para o seu interior. O que me movia eram duas necessidades instintivas: a de me restaurar fisicamente e a de me fundir com a própria Terra. Eram não só uma necessidade, mas um desejo profundo, muito profundo. Quando me encontrei em frente a uma zona de ervas altas e densas, a minha empatia com a “alma” da terra era já muito grande e senti que, naquele momento único, eu seria capaz de me fundir, sem medos, com aquela essência obscura e misteriosa da qual toda a existência tinha surgido.
Deixei-me cair...
E afundei, de costas, na profundidade das longas ervas que pareceram engolir-me na escuridão. Uma poalha de chuva muito fina pousava suavemente acariciando-me a face. Vislumbrei ainda algumas estrelas no céu distante que desapareceram rapidamente nas trevas que me envolveram...
E mergulhei na inconsciência total. Tão total quanto tranquila.
O vazio de tempo decorrido seria impossível de determinar.
Era um tempo sem Tempo.
...
Regressei à realidade de uma forma instantânea, imediata: senti, junto a cada um dos meus ouvidos, o sibilar de uma serpente — e levantei-me de um salto automático e assustado.
Em dois ou três passos rápidos afastei-me do local.
Olhei para lá, mas tudo parecia estar envolto na mesma tranquilidade.
Era noite profunda.
Sentia-me estranhamente revigorada e detentora de algo diferente dentro de mim. Algo muito poderoso, mas incognoscível.
Não consigo saber o que se passou nesse “entretempo”. Mas sentia-o. Sentia que mergulhara no âmago de algo inimaginável. Algo anterior ao próprio tempo. Anterior a tudo. Mas que tudo permeava... Estava, ou continuava a estar, imperceptivelmente em todas as coisas. Tão indefinida e suavemente como uma sombra invisível.
E senti a sua natureza amorfa, indomada, selvagem.
Não era uma natureza “má”. Era apenas selvagem, agreste... ...eu é que me assustei com aquele sibilar. Talvez porque senti que a minha natureza era mais frágil do que aquele “gear”, do que aquele “movimento” lento, imperceptível, mas poderoso e indomado...
— “Gear”?
— Foi a palavra que me surgiu para descrever, de algum modo, a sensação que obtive daquele tipo de “vida”... “gear”, como se fosse o movimento lento, mas poderoso e imparável da lava vulcânica... Assim como me surgiram as palavras “Geo”, “Geos” e “Geus”, para designar aquela “natureza”. Tinha realmente algo a ver com ‘caos’, mas com um caos de alguma forma “consciente”... é muito difícil tentar definir o indefinível! — concluiu Íris.
—
Sabes... isso poderá estar na base dos fractais...
E poderá ser a fonte daquilo a que chamo a Linguagem Aleatória da Existência.
Talvez seja o aleatório, esse factor de imprevisibilidade, que possibilita a vida > ao conferir-lhe uma dinâmica de liberdade. Sem a qual, de resto, creio que tudo seria determinista. E portanto, não existiria vida, pelo menos tal como a entendemos... Talvez existissem apenas “máquinas” ou “peças de relógio”.
Mas vamos recapitular um pouco sobre as origens, na física, do comportamento Aleatório:
Pensava-se que somente uma teia constituída por uma enorme quantidade de sub-unidades ou elementos causais poderia originar comportamentos deste tipo.
Porém, este ponto de vista foi alterado recentemente: descobriu-se que sistemas simples e deterministas, com apenas alguns elementos, podem gerar comportamento aleatório!
A aleatoriedade é imanente e fundamental – e não é a acumulação de uma maior quantidade de informação que a faz desaparecer. A aleatoriedade gerada por esta forma – como por exemplo através dos atractores e fractais – começou a ser designada por caos. Um aparente paradoxo é que este caos é determinista, gerado por regras fixas que não envolvem em si quaisquer elementos de acaso. Em princípio o futuro deveria ser completamente determinado pelo passado, mas na prática acontece que pequenas incertezas são amplificadas, e assim, não obstante o comportamento ser previsível a curto prazo, ele torna-se imprevisível a longo prazo.
Mas existe alguma ordem
neste Caos:

Subjacente ao comportamento caótico surgem elegantes formas geométricas que criam aleatoriedade do mesmo modo que o faz um “croupier” ao baralhar um jogo de cartas ou um pasteleiro ao misturar a massa dos bolos.
A descoberta deste caos originou um novo paradigma na criação de modelos científicos. Por um lado, implica novos e fundamentais limites na aptidão de fazer previsões. Por outro lado, o determinismo inerente ao caos implica que muitos dos fenómenos aleatórios são mais previsíveis do que já alguma vez se pensou. Muita da Informação aparentemente aleatória colhida no passado – e posta de lado por ser considerada demasiado complicada – pode ser agora explicada em termos de leis simples. O caos permitiu encontrar ordem em sistemas tão diversos como a atmosfera e a meteorologia, o gotejar de uma torneira, e o coração.
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6)
Deixa-me mostrar-te a análise que fiz a um trabalho realizado por um grupo de investigadores constituído por Crutchfield, Farmer, Packard e Shaw e que está relacionado com as minhas pesquisas, apesar de não coincidir completamente com o objecto da minha procura...
Mas como o trabalho que te vou mostrar se baseia na Teoria do Caos e no seu desenvolvimento fundamental — os atractores, é melhor fazermos aqui um pequena revisão para melhor compreendermos o alcance desse trabalho e, principalmente, para atingirmos o significado dos resultados do meu próprio trabalho de pesquisa que te mostrarei a seguir.
A Teoria do Caos faz parte de um recentíssimo ramo da ciência que se chama Ciência da Complexidade. Ou seja, o estudo da complexidade constituiu-se, finalmente, como uma ciência em si mesma.
É claro que a teoria do caos está também relacionada com a área da matemática que estuda as probabilidades, as variáveis aleatórias e os processos estocásticos.

E observemos agora a análise sobre o tal trabalho de que te falei:

Por vezes acontece que alguns dos pontos regressam à proximidade das suas localizações iniciais, causando um breve ressurgir da imagem original (48 e 241)!...
É claro que a transformação exibida aqui é especial já que o fenómeno da “recorrência de Poincaré” (como é designado em mecânica estatística) ocorre com muito mais frequência do que é usual na realidade. Numa típica transformação caótica a recorrência – o retorno à origem – é muitíssimo rara, ocorrendo talvez uma única vez no tempo de vida do universo. Na presença de quaisquer flutuações de fundo o intervalo de tempo entre recorrências é geralmente tão longo que (se supõe) que toda a informação acerca da imagem original é perdida.
... E neste ponto eu não concordo inteiramente > como consequência do trabalho de pesquisa que eu próprio realizei e que te vou agora mostrar:

Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (6)