Emmanuel de Cériz
IGNIUS
.O Mistério da Transmutação.
Cap - 7
O Princípio da Certeza
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (7)
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (7)
O Princípio da Certeza
Reconstruir o mundo
a partir de um grão de areia...
Pire, il était maintenant incapable d’en retrouver l’accès.
/ Il finissait par se demander s’il n’avait pas finalement rêvé tout cela /
¾Auriez vous perdu votre route ?
¾Je le crois, répondit Blade.
¾Avez vous oublié ce que vous a conseillé le Touktou ? Regardez avec votre cœur ! Agart est un univers d’initiés, un royaume de certitude. Il est invisible au commun des mortels. Suivez-moi.
Et les deux hommes repassèrent dans l’univers souterrain, à un endroit même où, plusieurs fois, Blade avait cherché et recherché l’entré.
¾Celui qui doute, expliqua encore le religieux, ne trouve pas.
¾Mais le questionnement fait progresser, s’offusqua Blade.
¾Sans doute certaines questions font-elles progresser. Mais font-elles aller aussi loin et aussi bien que les certitudes ? Vous-même, grand guerrier, vous savez qu’au combat, celui qui se pose des questions est déjà mort.
¾Cela n’a rien à voir.
¾Oh si. La vie est un combat… contre soi le plus souvent. Voyez, vous avez suivi Lokifar sans vous poser de questions. Vous saviez qu’il connaissait la route d’Agart. Et vous êtes passés. Puis vous vous êtes interrogés. Alors vous êtes ressortis. Et là, seul, doutant de votre expérience, vous n’avez pas retrouvé le chemin de notre royaume.
Jeffrey Lord, « Les révoltés du roi du monde »
“Como podemos nós resolver o giro paradoxal de que o macrocosmos – o mundo de todos os dias – determina a realidade microscópica que, por sua vez, o constitui? Este problema atinge o ponto crucial ao perguntarmos por aquilo que realmente acontece, quando se faz uma medição quântica. Como é que o observador se tem de comportar para projectar o nebuloso microcosmos para um estado de realidade concreta?” Paul Davies
O Princípio de Incerteza de
Heisenberg: Não se pode determinar, simultaneamente, a posição e o movimento
de um electrão.
Íris folheava o livro de Física Quântica enquanto brincava distraídamente com o seu pequeno cubo vermelho.
Um dia ainda iria conseguir transformá-lo numa esfera azul.
Era uma questão de conseguir articular o mecanismo da transmutação com o Princípio da Certeza.
E isso seria quando conseguisse eliminar a dúvida...
Continuou a folhear o livro.
Admite-se que, devido ao quanto de acção planckiano, existem certos pares de variáveis cujas medições quando feitas em conjunto apenas podem atingir um certo grau de precisão. Isto é, há sempre uma incerteza na sua observação simultânea: quanto mais precisa é a determinação de uma, mais imprecisa se torna a condição de outra.
Niels Bohr definiu tais variáveis como complementares, querendo com isso significar corresponderem a conceitos que, embora contraditórios, são mesmo assim conjuntamente indispensáveis para descrever a totalidade do fenómeno observado, e que só podem ser definidos um em relação ao outro. A este respeito, poderíamos dizer que a vida e a morte são as duas faces do fenómeno humano.
Íris suspirou reflectindo... “a transmutação poderia ser a libertação da estranha dualidade desse factor humano...”
Continuou a ler enquanto pensava.
A posição de um móvel no espaço e a sua velocidade são complementares; assim, as determinações que efectuarmos, x para a posição e p para a quantidade de movimento, virão afectadas de incertezas Dx e Dp tais que Dx × Dp ³ (H/2).
com H=h/2p = 6,6 x 10-22 MeV×s
e h (constante de Planck) = 6,625x10-27 ergs
A mesma incerteza relaciona determinações simultâneas da energia E e do tempo t:
DE×Dt ³ (H/2)
Tal implica que para intervalos de tempo muito curtos a energia não é definida.
Íris pensou em dois tipos fundamentais de incertezas: a Incerteza Cartesiana, baseada na dúvida sistemática e a Incerteza Quântica baseada no factor imprevisível ubíquo e paradoxal do aleatório... como eram distintas e diferentes!
Sentia que a incerteza quântica se complementava perfeitamente com o tal Princípio da Certeza que queria formular... e que não lhe era antagónico. Era devido a essa intuição que despendia tanto tempo na análise desse tipo de incerteza. Talvez a análise e a reflexão profunda sobre a incerteza quântica a conduzissem ao enunciado do seu Princípio da Certeza...
E, de resto, enquadrava-se perfeitamente com a teoria geral do transmutalismo
O mesmo já não sucedia com a incerteza ou dúvida cartesiana. Esta era precisamente contrária à actuação directa da consciência sobre a matéria, energia, espaço e tempo. Era castrante Mas era útil para realizar determinado tipo de descobertas. Nas quais era necessário evitar que o investigador/observador alterasse o objecto da descoberta – embora tal objectivismo talvez não fosse verdadeiramente possível. De qualquer forma, apesar de castrante para a “actência” (baptizara assim a nova espécie de ‘ciência’ ainda por nascer, baseada na consciência actuante), não deixava de ter o seu valor – a prova disso eram a tecnologia e as descobertas obtidas pela ciência experimental. Claro que o método científico e a dúvida sistemática, hipótese/experimentação, tentativa e erro, pôr tudo em causa, ver para crer, etc., tinham o seu lugar. O problema estava em que um sistema tinha tendência para rejeitar, anular e castrar o outro.
O pensamento científico actual exercia um forte campo inercial e redutor. Um campo “magnético” que dificilmente nos deixaria acreditar em algo não provado e que nos impedia assim de, por exemplo, alterar mentalmente a matéria. Que nos impedia de olhar para um cubo vermelho ‘acreditando’ que se tratava de uma esfera azul. Acreditando tão intensamente, tão eficazmente, tão absolutamente, tão actuantemente, tão activamente... que em lugar do cubo vermelho obteríamos uma esfera azul.
“É claro que este ‘acreditar’”, pensava Íris, “é de tipo diametralmente oposto ao acreditar comum que se baseia ou na suposição ou na comprovação, isto é, acredito que seja assim porque me baseio em determinadas suposições, ou, acredito que seja assim porque o vi ou o comprovei de algum modo. Ou ainda o acredito porque os outros acreditam. Todas estas formas de acreditar não têm a ver com o outro tipo de ‘acreditar’ que, de resto, nem deveria utilizar a mesma palavra. Mesmo a espécie de crença de alto grau, que é a fé, não é propriamente a mesma coisa.
O ‘acreditar’ actuante é também um fazer. O ‘acreditar’ activo produz a realidade em que ‘acredita’. Esse será o ‘acreditar’ implícito no Princípio da Certeza.”
Íris pressentia assim, que o Princípio da Certeza tinha uma natureza dinâmica e actuante, que poderia criar qualquer forma determinada pela nossa consciência, a partir do limbo da natureza regido pela incerteza quântica.
O Princípio da Certeza seria a alavanca activa que transformaria a natureza passiva do nebuloso microcosmos quântico, numa realidade concreta, ao sabor da vontade da consciência actuante do observador.
O observador poderia assim criar, recriar, transformar ou transmutar realidades ¾ objectos, seres, fenómenos.
No caderno que quase sempre a acompanhava tentou esquematizar as suas ideias:
A sua consciência, talvez tivesse de primeiro dissolver/mergulhar o seu pequeno cubo vermelho na indefinição quântica, para depois o fazer emergir na definição do real concreto e macroscópico sob a forma de uma esfera azul.
“É curioso”, surpreendeu-se Íris ao recordar-se de uma das características da Arte Transmutalista:
“O movimento ascendente geral, que conduz os seres à transmutação, leva-os a abdicar dos seus limites bem definidos e a mergulhar na indefinição antes de evoluir para outras formas.”
“Como a arte e a ciência caminhavam de mãos dadas”, pensou.
A ideia que tinha, de que uma nova corrente artística surgia sempre associada a uma nova etapa da ciência mais se fortaleceu. Lembrou-se do impressionismo e do pontilismo associado à teoria atómica e à invenção tipográfica e do surrealismo e da arte abstracta associados à teoria da relatividade e às descobertas da psicanálise (com os célebres relógios moles/derretidos/fluidos de Dali evocando a deformação relativista do tempo e do espaço, as figuras arquetípicas e subjectivas, a abstracção das formas de Picasso relacionada com abstracções da matemática moderna, a ubiquidade dos rostos frente+perfil, etc...)
Apetecia-lhe reler o capítulo da arte transmutalista sobre a indefinição.
Levantou-se para ir buscar o livro à estante e espreguiçou-se intensamente como um felino. Na ponta dos pés, estendeu-se para o tecto, esticando as pernas, o ventre, o peito, os braços e as mãos em uníssono, até parecer uma prancha. Até sentir aquela energia fluir pelo seu corpo, de baixo para cima, para depois se dissipar... talvez algures no topo. Era um exercício excelente. Principalmente para quem estava sentada há horas!... Nunca compreendera porque consideravam de má educação o acto de espreguiçar em frente a outras pessoas. Parecia-lhe um absurdo provocado pela ignorância, já que era um dos actos mais saudáveis para o corpo humano.
Ao dirigir-se para a estante lançou um olhar através da janela para o exterior verde de folhagem rumorejante. Como era bom estar ali, na sua pequena mas acolhedora cabana, no centro da floresta...
Inalando as oxigenadas e frescas fragrâncias silvestres dedilhou os vários volumes até encontrar um com o título “Transmutalismo”. Folheou-o até à secção relativa à arte e começou a ler o capítulo sobre a indefinição.
A indefinição possui uma qualidade vital – a independência da rigidez das características da entidade que por a definirem, também a aprisionam e limitam a isso mesmo. A figura indefinida ou pouco definida é mais livre e pode, mais facilmente, transformar-se noutra coisa. A definição rígida é limitante e aprisiona os entes às suas características.
“A indefinição traduz, na pintura transmutalista, a libertação da prisão ontológica e da prisão do espaço-tempo, prisões estas, que no fundo, se situam na mente dos seres. Uma forma indefinida, uma idade indefinida, uma cor indefinida. Isto é, a independência em relação ao tipo de ser, em relação ao tempo, em relação ao espaço.
“Duas formas diferentes, mas concorrentes, de abordar o mesmo”, pensou Íris, “esta abordagem artística agrada-me.”
Continuou a ler, ao mesmo tempo que lhe surgiam novas inferências...possivelmente úteis para o seu propósito.
Em toda a miríade de estados de ser que se movimentam em níveis de energia não comuns, os limites e as delimitações da forma esbatem-se e, os seres e objectos ultrapassam as fronteiras da rigidez, metamorfoseando-se. Estas formas metamórficas de seres e objectos, por vezes animizados e por vezes humanizados surgem ao longo de toda a representação pictórica.
Contudo, a expressão artística predominante são os estados intermédios. Os estados de transição entre o ser humano comum e o ser transmutado e, também, as transições entre as formas em geral e as cores.
A cor e a forma surgem muitas vezes indefinidas mas, esta indefinição dilata-se, também, aos próprios limites do espaço e do tempo.
As figuras centrais enquadram-se, com frequência, não em um espaço, um horizonte, mas sim em vários horizontes e perspectivas. Estes espaços múltiplos em que se situam os seres são, por vezes, os espaços subjectivos da mente nos quais vivem. Quando estamos situados numa determinada paisagem, o espaço que subjectivamente nos envolve não é, apenas, esse espaço, essa paisagem, mas todas as projecções, todos os panoramas, aos quais associamos essa vivência. O enquadramento das figuras torna-se assim um caleidoscópio de horizontes, de paisagens.
Por vezes, a ausência de delimitação das formas significa uma fusão do ser ou do objecto com o meio envolvente. A figura está embebida na atmosfera da qual faz parte.
Seguiam-se diferentes exemplos pictóricos da indefinição que encerra múltiplas possibilidades:

“TRANSMORPHOSYS, Movimento de Conquista”, Céríz, 1999

“Axioma I”, Céríz, 2000

“Seres do Mar”, Céríz, 2000

“Pacífico”, Céríz, 1994

“Asa partida”, Céríz, 2000
Com um ar pensativo, pegou de novo, lentamente, no seu caderno e voltou ao esquema que escrevera e que constituíra o ponto de partida para todas aquelas ‘divagações’. ‘Divagações’ que certamente lhe seriam úteis na reanálise do problema. Tinha esse costume. Partia de um problema, para o qual já formulara algumas hipóteses, registava esse ponto de partida no seu “stack memory” – a sua pilha de memória indexada, à maneira da estrutura interna dos microprocessadores e, em seguida, lançava-se à aventura da descoberta e reflexão de toda uma série de coisas relacionadas. No fim da sua digressão regressava ao seu ponto de partida, em geral mais enriquecida e com novas hipóteses acessórias: complementares ou divergentes.
Por isso voltou a desenhar o seu diagrama fazendo-lhe algumas adições:
O seu ponto de partida fora que, talvez a sua consciência tivesse de primeiro dissolver/mergulhar o seu pequeno cubo vermelho na indefinição quântica, para depois o fazer emergir na definição do real concreto e macroscópico sob a forma de uma esfera azul.
Esse estranho arco porque passaria o cubo vermelho – de voltar atrás para ir à frente, isto é, de mergulhar na indefinição para depois se redefinir – não estaria relacionado com a operação -T, a operação de inversão do tempo?
Porque, de certa forma, dissolver o cubo no nível quântico de realidade não seria fazê-lo regredir, retroceder até ao conteúdo energético que lhe dera origem? E que era anterior ao limiar de qualquer forma por ele assumida posteriormente?
Retroceder, regredir, viajar ao passado do objecto... esse processo parecia-lhe estar relacionado com a função Tempo...
Curiosamente, no dia anterior, surgira-lhe aparentemente do nada, a ideia de que a manipulação do tempo pudesse estar relacionada com o mecanismo de transmutação. Mas sem ter encontrado qualquer razão para o aparecimento dessa hipótese!... a proximidade com o dia de hoje teria provocado qualquer osmose? teria ontem entrado no “campo ‘magnético’ cognitivo” do dia de hoje, devido à proximidade temporal entre ontem e hoje?... porque só hoje criara uma hipótese da intervenção do tempo com alguma razão de ser!
“Enfim, deixarei essas hipóteses para outra altura...”, decidiu Íris.
“Bem, se eu fizesse o cubo voltar atrás, até ao tempo anterior a qualquer forma do objecto, ou pelo menos anterior à sua forma definida, cristalizada, ou ao limiar da sua forma, o dispêndio de energia para o transmutar noutra forma, noutra entidade, seria mínimo!”, esta ideia encantava-a.
“Para impulsionar ou projectar qualquer forma emergente no campo de energia ou conteúdo energético do objecto, antes de ele se ter definido como cubo... seria apenas necessário imprimir-lhe uma pequena flutuação energética. O que seria muito económico.”
Seria a transmutação a baixa energia, um ‘sonho’ da física nuclear. Como referia R. Gouiran em Particles and Accelerators:
Em ordem a compreender as leis destas transmutações e, se possível, tirar proveito do seu conhecimento, o Homem começou por estudar a radiação cósmica natural, fonte das partículas de alta energia originadas na nossa galáxia ou alhures e construir depois aceleradores [de partículas] e pilhas atómicas. Todavia, as quantidades de material tratado pelos aceleradores de alta energia permanecem infinitesimais em relação, por exemplo, ao ciclo do dióxido de carbono. Um moderno sincrotão precisaria de mais de dez mil anos para tratar um grama de material protónico!
“Decididamente”, pensou Íris, “não é esta a abordagem que pretendo...”
Portanto, até agora apenas se tem podido recorrer à química mais simples para produzir moléculas à custa dos elementos tal como se nos apresentam, sem possibilidade de neles encontrar a energia que permitiria a transmutação directa do carbono em oxigénio, a não ser que um fenómeno, presentemente desconhecido e de toda a aparência improvável, tornasse possível a referida transmutação a baixa energia.
Esse fenómeno presentemente desconhecido não seria a translação no tempo do objecto até o fazer mergulhar na realidade quântica?... para depois o fazer emergir com uma outra estrutura ou como uma entidade diferente?... através da aplicação de uma ligeira flutuação de energia enquanto o objecto estava no mundo quântico, estado supersensível à consciência do observador?...
Uma ligeira flutuação ou transformação nesse estado quântico, entre a energia e a matéria, poder-se-ia traduzir numa transformação radical, numa transmutação, após a emergência do objecto no nosso ‘mundo da realidade concreta’.
Este seu pensamento fez-lhe recordar a “teoria do Big-bang”, a explosão cósmica que hipoteticamente originara o universo. Se pudéssemos recuar ao momento exactamente anterior ao Big-bang, quando o universo seria apenas uma pequena esfera de uma gigantesca concentração de energia [contendo em si todas as possibilidades latentes], supunha-se que, se pudéssemos imprimir-lhe uma diminuta flutuação de energia, o universo resultante da explosão seria completamente diferente, isto é, as próprias leis físicas da natureza seriam outras!...
Voltando à operação tempo...
Folheou o seu pequeno compêndio de Física Nuclear até encontrar as hipóteses sobre a Inversão do Tempo:
A maneira como evoluiria um sistema no qual o sentido do tempo tivesse sido invertido, permanece um dos grandes problemas da física. Mas que significa a expressão: inverter o sentido do tempo? Uma equação que representa determinado movimento pode conter explicitamente a variável tempo, t; por exemplo, se o leitor conhecer a velocidade do seu carro poderá querer saber onde estará ao fim de um certo espaço de tempo. Que aconteceria se nesta equação a variável +t fosse substituída por –t, isto é, se admitíssemos, de maneira totalmente hipotética, que o tempo se tornasse negativo seríamos , então, tentados a descrever um corpo que recuasse com a mesma velocidade.
Se, os dois movimentos (para a frente ou para trás), não obedecessem às mesmas leis, ser-nos-ia possível detectar o sentido do tempo e provar, assim mesmo, que o tempo negativo, o tempo que flui ao contrário, existia realmente.
É claro que a sua ideia fundamental, sobre a qual todas as suas outras ideias assentavam, era a de que todas as operações relacionados com a transmutação deveriam ser dirigidas e desencadeadas pela consciência actuante, e não pela tecnologia como acontece, por exemplo, através dos aceleradores de partículas, nos actuais processos de transmutação física dos elementos.
Mas de qualquer forma seria importante analisar toda a via tecnológica para melhor identificar os pontos de aplicação fulcrais onde a consciência deveria actuar.
Noutra publicação, ainda relacionado com o princípio de Incerteza de Heisenberg, leu:
Já há algum tempo que era do conhecimento dos físicos que certos processos, como a radioactividade, parecem ser aleatórios e imprevisíveis. Embora um grande número de átomos radioactivos obedeçam às leis da estatística, o momento exacto da decadência de um núcleo atómico individual não pode ser previsto.
Esta incerteza fundamental estende-se a todos os fenómenos atómicos e subatómicos, e requer um revisão radical das crenças vulgares para a sua explicação.
Antes da incerteza atómica ter sido descoberta no princípio deste século, supunha-se que todos os objectos materiais se sujeitavam estritamente às leis da mecânica, que operam para manter os planetas em órbita ou dirigir uma bala para o alvo. O átomo parecia uma versão do sistema solar em ponto muito pequeno, com os seus componentes internos movendo-se com a precisão de um mecanismo de relojoaria. Isto revelou-se ilusório.
“É incrível como, ainda nos dias de hoje, permanece em muita gente essa ideia”, pensou Íris.
Nos anos 20, descobriu-se que o mundo quântico está cheio de caos e negrumes. Uma partícula como o electrão não parece seguir qualquer espécie de trajectória significativa e bem definida. Num momento está aqui, a seguir, aparece acolá. Mas tal não acontece só aos electrões; também, sucede o mesmo com todas as partículas subatómicas – e até a átomos inteiros –, não podendo ser-lhes atribuído nenhum movimento bem definido. Se se investigar profundamente, a matéria concreta da experiência diária dissolve-se num turbilhão de imagens fugidias e fantasmáticas.
A incerteza é o ingrediente principal da teoria quântica. E arrasta directamente a uma consequência imediata: a imprevisibilidade. Será que todos os acontecimentos têm uma causa? Poucos o poderiam negar. O factor quântico, porém, interrompe aparentemente a cadeia, ao permitir que haja acontecimentos que não têm causa.
Já nos anos vinte grassava a controvérsia quanto ao sentido a atribuir à face imprevisível dos átomos. Será a natureza intrinsecamente caprichosa, permitindo que os electrões e outras partículas andem a pular de um modo aleatório, sem tom nem som – como fenómenos sem causa? Ou serão essas partículas como rolhas que saltam devido à existência de um vasto oceano de forças microscópicas?
A maioria dos cientistas, sob a direcção do físico dinamarquês Niels Bohr, aceitaram que a incerteza atómica é um facto verdadeiramente intrínseco à natureza: regras do tipo dos mecanismos de relojoaria podem aplicar-se a objectos familiares, como as bolas de bilhar, mas quando se chega aos átomos, as regras são as da roleta...
Íris
rolou o pequeno cubo
vermelho entre os seus
dedos como que para examinar a textura e a cor... ou antes as suas
possibilidades de as transformar.
Claro que a dúvida era, sem dúvida, o principal impeditivo.
Qual seria a raiz da dúvida?
Quando, como e porquê se teria ela instalado, tão corrosivamente, no espírito humano?
Teria sido uma protecção, criada numa época remota, contra as incursões do desconhecido no real? Uma forma de desacreditar esse desconhecido, tirando-lhe assim poder e desvanecendo a sua existência. Uma defesa instintiva ou inconsciente do homem? Criara assim a dúvida para, inconscientemente, retirar a realidade aos elementos do desconhecido que o assustavam?
Ou... não seria mesmo a categoria ‘humana’ uma espécie – um tipo de ser – resultante da dúvida?...
Sim, porque se a espécie humana não trabalhasse com a ‘dúvida’, mas sim com a ‘certeza’, possivelmente já não se poderia considerar a mesma espécie.
Talvez fosse esse o factor definidor da espécie...
Tal como ela era.
Assim, a vida e a morte eram ainda, realmente, as duas faces do fenómeno humano.
O seu pequeno cubo vermelho passeava distraídamente entre os seus longos dedos de belas unhas azuis.
Por vezes lançava-o ao ar como que para estimular os seus pensamentos.
Tinha cada vez mais a intuição de que a solução estaria na base de uma outra forma de ‘ciência’ que não se fundamentaria na dúvida mas na certeza.
Uma via oposta àquela pela qual evoluíra a ciência.
A ciência baseava-se na dúvida como caminho para a descoberta.
A outra “ciência”, não seria propriamente uma ciência. Talvez uma arte, uma “actuância”, um “fazer”.
Um “fazer” baseado em certezas. Um ‘actuar’ para o qual não eram precisas descobertas.
A ciência estivera associada a uma fase do espírito humano. A esta fase da nossa sujeição aos elementos e à natureza. Como tal procurara descobrir como funcionavam as coisas para poder lidar com elas.
A nova ‘ciência’ estaria associada a uma nova fase do espírito, do ser. À fase do domínio sobre os elementos e sobre a natureza. À fase criativa, regedora. Para a qual eram precisas apenas certezas e não conhecimentos ou desconhecimentos ( estes não seriam a mesma coisa? – todos os conhecimentos encerram em si desconhecimentos e os desconhecimentos encerram sempre algum conhecimento...).
“É claro que seria vital uma educação prévia de Ecologia”, pensou Íris com um certo receio do poder em mãos pouco éticas.
“Van Gogh é o artista que mais admiro...”
“Talvez por razões diferentes daqueles que o admiram”, reflectiu Íris.
“Eu não sei se ele se apercebia do que estava a fazer, mas ele estava a pintar a ‘actuância’.”
“Estava a pintar a deformação da realidade pela consciência, através das pinceladas curvas e da deformação dos objectos.”
Recordou o quadro “Nuit etoilée” e o seu céu nocturno revolvido pelas deformações concêntricas e espiraladas das torrentes de luz em redor das estrelas...
“...Era o movimento da mente do observador impressa à realidade...”
Mas voltou às suas reflexões sobre ciência e ‘actuância’.
A ciência fora necessária em toda uma fase de obscurantismo do espírito humano. Fora necessária para redescobri-lo, para levantar esse véu de obscurantismo.
O homem adensara-se e embrenhara-se na matéria, a um tal ponto que esquecera tudo o que a sua essência energética sabia. E perdera a confiança. Passara a reger-se pela dúvida e a caminhar às cegas na escuridão. Apalpando e formulando hipóteses. Os olhos do espírito tinham deixado de ver... os olhos do espírito que tudo viam e sabiam na forma de um conhecimento directo. Silencioso. Imediato.
Estava tudo lá. Não teria havido necessidade de redescobrir aquilo que já se sabia.
Agora essa dúvida estava enraizada no mais profundo do seu ser. as raízes nodosas fixavam-no à terra, imobilizando-o. Criara máquinas para fazer tudo aquilo de que não se sentia capaz. Criara máquinas para se moverem por si. Por si, que estava fortemente enraizado/algemado na terra e na matéria, incapaz de movimento próprio.
Incapaz de liberdade autêntica, contentara-se com a mobilidade dos seus engenhos que gravitavam à volta da sua copa, dos seus ramos.
Mas ele, o Homem, permanecera fixo à sua própria natureza recém adquirida e ilusória.
E era isso a espécie humana.
Milhares de anos haviam decorrido, muitos conhecimentos adquirira, muitas coisas haviam mudado, mas o seu tipo de ser e a sua estrutura física permaneceram estáticos.
Estáticos numa obsolescência ameaçante.
Íris saltou da cadeira, preocupada em formular o princípio da certeza.
Tinha uma ideia vaga mas intensa do tipo de enunciado desse princípio, mas ainda não o conseguira traduzir em palavras...
“Vou dar um passeio pela floresta”, disse para si própria.
Sempre que passeava pela floresta profunda, o seu ser esbatia-se, e ela perdia a consciência de quem ou do que era. Misturava-se/mesclava-se/dissolvia-se com a natureza. E isso era libertador.
“Como era bom mergulhar na indefinição e ser um pouco de tudo”, pensava enquanto fechava a porta da pequena cabana de madeira, ali, no centro da frondosa floresta secular.
“E será sempre bom comunicar com as árvores. Encerram em si uma sabedoria tão antiga, tão profunda...”
Os seus olhos passaram ainda pelas três pequenas frases inscritas na madeira da porta:
Que a paz profunda da estrela radiosa fique contigo.
Que a paz profunda da onda que rola fique contigo.
Que a paz profunda da terra tranquila fique contigo...
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (7)
Avançou alegremente com passos saltitantes, ao longo do carreiro almofadado pelas folhas do Outono.
Vestiu o seu casaco de capuz.
“Que bom”, pensou ao sentir o confortável e quente forro aveludado.
Entretanto continuava a brincar com o pequeno cubo vermelho. Como era seu hábito.
Enquanto passava sob as
belas azáleas que ‘frequentavam’ a floresta, recordou-se de um acidente
que tivera anos atrás.
Devido a várias fracturas ficara com uma perna completamente imobilizada cerca de um mês.
Fora o tempo bastante para esquecer como mover o pé direito.
Tentativa após tentativa, o pé mantivera-se imóvel.
A dúvida foi-se instalando onde antes existira uma certeza instintiva, inconsciente, espontânea, automática.
Mover o seu pé sempre fora algo tão natural que lhe parecia que nunca precisara de pensar para o fazer.
E depois a dúvida enferrujara a sua ‘naturalidade’ e já não conseguia acreditar que o faria mexer-se.
Lembrava-se que fora muito difícil reconquistar essa confiança.
Porque, no fundo, nem sequer bastaria acreditar.
Mover o pé estava para além do acreditar ou não acreditar.
Era algo tão intimamente natural, tão intrínseco ao seu ser que, na verdade, nem sabia como o fazia.
Simplesmente fazia-o.
“E possivelmente poderia ser assim com todas as coisas que me rodeiam”, pensava Íris.
Mexer na trama espacial ou na matéria que nos rodeia – e talvez no próprio tempo – seria tão indefinível, tão íntimo e sem pensamentos (já que os pensamentos estão quase sempre associados a dúvidas e ‘incertezas’) como mover um membro do nosso corpo.
Mexer nos objectos que nos rodeiam – através da acção directa da consciência – seria como mover, num passo de certeza, uma extensão de nós próprios. Tão “inconsciente” como mexer um braço ou uma perna. Tão confiantemente infalível.
O Princípio da Certeza...
Mas, uma vez perdida a confiança, era muito difícil readquiri-la.
Como reconquistara essa confiança após o acidente?
Procurou lembrar-se...
Sim, realizara muitas tentativas sem êxito...
Mas recordou-se de uma vez em que o seu espírito indomável se empenhou todo, com toda a sua energia, em conseguir mover o pé.
Sentira que deslocara toda a sua energia para aquela zona do seu corpo. Para aquele acto específico. Como se uma esfera de calor âmbar se tivesse movido para aquela extremidade do seu corpo, e ao mesmo tempo, para entre a sua vontade e a sua consciência...
A tal ponto que tudo se esbatera à sua volta: as paredes do quarto no hospital, e ele próprio.
A tal ponto que sentira que se tornara o próprio pé e, num passe de tranquila confiança, mexera-o mesmo.
Isso fora a pedra na reconstrução do castelo da sua ‘autoconfiança’. A partir daí tudo fora mais fácil...
De cada vez que voltara a conseguir movê-lo, a sua confiança aumentara... até que essa confiança se transformou/transmutou, de novo, em certeza.
E a certeza estava para lá da crença ou descrença.
Para lá das interrogações que apenas permitiam o indagar e o descobrir.
A certeza era a alavanca do actuar.
‘O actuar’ não necessitava de conhecer o mecanismo preciso através do qual movimentava o pé.
O actuar regia-se por outros princípios.
Por Princípios de Certeza...
Íris tinha já percorrido uma boa distância.
Viu um raio de luz passar entre as copas das árvores e deitou-se ao sol, sobre um colchão de folhas fofas e amarelecidas.
Mergulhou rapidamente num sono curto.
Quando Íris chegou à cabana sentou-se confortavelmente à sua mesa de trabalho. A sua mente fervilhava.
Obtivera já um interessante conjunto de hipóteses e precisava de as esquematizar:
Hipótese 1
Mergulhar o objecto na nebulosidade quântica (próximo do campo energético que lhe dera origem) para depois o fazer emergir (com a forma impressa/impulsionada pela consciência) na realidade concreta.
Como?
Hipótese 2.1 – Fase 1
Aplicando uma operação –t ao objecto.
Através de uma regressão temporal à proximidade da ‘origem’ energética do objecto. Ou, mais precisamente, ao momento nebuloso entre o estado de energia e o estado de flutuações que teriam precedido a forma/entidade do objecto.
Onde se situaria esse estado limiar, essa “twilight zone” do objecto?
– Num um qualquer momento em que o objecto actual ainda não existisse, mas apenas o seu conteúdo, o seu campo de energia.
A admitir a veracidade da Teoria do Big-bang, se esse momento não fosse mais recente, pelo menos encontrá-lo-ia-mos na esfera energética primordial do universo, antes da formação da matéria.
Curiosamente, Jaez Piveteau, membro da Academie des Sciences e fundador do Laboratório de Antropologia da Universidade de Paris, defendia que era necessário remontar a origem do homem ao Big-bang.
Na sua tese sobre os Níveis de Complexidade Crescente, ou Patamares de Integração Sucessiva, refere que:
Depois de algumas dezenas de anos, graças às descobertas sucessivas feitas pela Paleontologia, Biologia, Bioquímica, Física Relativista e Quântica, Astrofísica e Cosmologia, a origem do Homem foi deslocada para cada vez mais e mais longe no passado.
Hoje em dia, somos forçados a aceitar o facto de que a história da génese do Homem não está somente ligada à história da vida em si mesma e à história do nosso planeta, mas que ela está intimamente ligada à história do Universo no seu todo, e que é necessário assim remontar a origem do Homem ao “Big-bang”, isto é, à explosão inicial.
“Mais interessante ainda”, pensou Íris,” era a sua frase:”
A origem do Homem será recuada a uma poeira cósmica que terá progressivamente tomado consciência dela mesma.
Durante cerca de 15 milhões de anos, o universo em expansão evoluiu inteiramente no sentido da entropia (sentido mais provável), com degradação contínua da sua energia. Houve a formação de partículas, as quais se estruturaram entre elas para formar os átomos. Houve assim passagem a um nível de integração e de organização superior por complexificação das estruturas existentes; os átomos tornaram-se mais complexos que as partículas e adquiriram propriedades novas que não existiam à escala das partículas tomadas isoladamente.
“Aqui temos de novo o holismo”, reflectiu Íris.
A cada uma das etapas complexificantes, ou níveis de integração superior, assistimos à aparição de propriedades novas que não existiam anteriormente. Ora, a partir da passagem da matéria inerte à matéria viva, em termos de física, não é mais a entropia que domina na escala dos seres vivos já que estes não somente “resistem” à degradação universal, mas vão passando, não mais de um dado estado a um estado cada vez mais provável, mas sim de um dado estado a um estado cada vez mais improvável, isto é a entropia negativa ou neguentropia.
O Homem será actualmente o ser vivo mais “neguentropisado” da biosfera, como resultado de uma longa acumulação de energia, sem cessar metabolisada.
A antropologia biológica, na pesquisa da origem do Homem, deve fazer-se integrar dos resultados das diferentes disciplinas científicas actuais, na medida em que são dados suplementares para a reconstituição global da evolução do Homem, cuja origem será recuada a uma poeira cósmica que terá progressivamente tomado consciência dela mesma...
“Sem dúvida que havia aqui uma certa convergência de ideias”, cogitou Íris enquanto continuava a esquematizar as suas hipóteses:
Hipótese 2.1 – Fase 2
Aí, nesse estado quântico, uma ligeira flutuação na sua energia, aplicada pela nossa consciência, seria o suficiente para lhe imprimir a nova forma, substância e estrutura desejada... em suma, a sua nova entidade, ou o seu novo ser.
Possivelmente, para essa nova forma ainda por emergir, esse impulso/‘inclinação’, não passaria de uma nova orientação / de um impulso embrionário que, a partir desse momento, ficaria latente ao campo de energia. Porém ficaria “fenótipicamente” não manifestado. Só iria manifestar-se quando o campo energético passasse ao estado de realidade concreta, na forma do ‘objecto’ em si.
Hipótese 2.1 – Fase 3
Para trazer de volta o ‘objecto’ ao estado de realidade concreta, seria necessário aplicar-lhe uma operação +t, de forma que o ‘momentum temporal’ fosse igual a zero.
Isto é, depois de ter sido aplicada uma deslocação temporal do ‘objecto’ ao passado (-t), era agora necessário aplicar uma deslocação do passado para o presente (+t) – de forma que o objecto regressasse ao ‘ponto de partida’.
· Outras possibilidades: Sem aplicar uma operação temporal ao ‘objecto’:
Hipótese 2.2.1
Pela Conversão directa de Massa em Energia seguida da conversão inversa de Energia em Massa.
Isto é, fazendo a sua transformação directa em energia. “Mhmm...”, pensou Íris, “a quantidade de energia obtida seria brutal, mais do que suficiente para a volatilizar, assim como tudo ao redor. E seria praticamente incontrolável. Além de que não teria a barreira do tempo a separá-la e a protege-la do mega fulgor do conteúdo energético do objecto...
Não lhe parecia viável.
Hipótese 2.2.2
Não transformando o ‘objecto’ em energia.
Efectuando um rearranjo directo das suas partículas constituintes (atómicas e subatómicas).
“Mhmm... a quantidade para o fazer seria ‘astronómica’!”, pensou novamente Íris.
As partículas constituintes mantêm-se coesas por poderosas forças: a força electromagnética, a força nuclear forte e a força nuclear fraca. Uma força que, contrariasse essas forças e provocasse um novo arranjo nas partículas constituintes, exigiria uma quantidade incomensurável de energia.
Não lhe parecia nada elegante, sob o ponto de vista formal físico-matemático. Parecia-lhe duro, rude.
E de resto, era o que se passava nos aceleradores de partículas da física nuclear – para se obter a transmutação de apenas pequenas quantidades de átomos de um dado elemento em átomos de outro elemento diferente, era utilizado o processo de os bombardear com partículas super-aceleradas a muito altas energias.
Este método duro, de bombardear umas partículas com outras, aceleradas por forças gigantescas, para perfurarem as suas barreiras de forças electromagnéticas e nucleares, resultava num gasto imenso de energia. Além de exigir meios tecnológicos muito sofisticados.
Sem dúvida que os aceleradores de partículas eram obras admiráveis e muito tinham contribuído para a descoberta da constituição da matéria.
Mas não era esse, o tipo de abordagem transmutacional que procurava.
Esse método parecia-lhe um pouco semelhante a modificar a forma de um objecto dando-lhe marretadas.
Deveria haver uma forma mais essencial, mais vinda de dentro, para o fazer.
Mexer no cerne da questão, na ‘raiz’ do problema, para lhe alterar os ‘ramos’. Em vez de os procurar ‘vergar’ à força.
Em 1901, Wilhelm Otswald, um precursor do pensamento quântico, expunha na Universidade de Leipzig, ideias curiosamente convergentes e ainda em embrião na época:
A mais recente teoria do paralelismo psicofísico parte da hipótese de que a todo o acontecimento ‘espiritual’ corresponde um acontecimento físico e, na medida em que esta hipótese pode ser posta à prova, foi sempre confirmada. Assim também os materialistas julgam que o espírito é apenas um efeito da matéria e para apoiarem esta tão divulgada concepção do mundo aduzem um grande número de factos experimentais. a energética pode mobilizar em seu favor ambos os exércitos, visto que «acontecimento físico» e «efeito da matéria» não são, para nós, senão transformações de energia.
A diferença consiste apenas na hipótese insustentável, admitida por aquela teoria, de que a matéria é um conceito último da realidade. Posta de parte esta hipótese, a frente muda e todas as demonstrações utilizadas por um e outro campo são úteis à concepção energética.
À procura de uma Hipótese 3:
Como realizar uma operação temporal?
Isso parecia ser uma tarefa impossível.
Há séculos que a cultura humana considerava tal façanha impensável!
– Mas seria tanto assim?
E será que o tempo existiria de facto?
Pelo menos como era considerado?
Íris lembrou-se de uma estranha experiência que tivera há alguns anos atrás no sul de Espanha...
Talvez não fosse tão impossível assim, mexer no tempo.
A experiência dera-se quando fizera uma viajem de carro entre duas cidades. Nessa época Íris estava numa fase de grande ‘energia pessoal’.
A velocidade máxima do veículo era de 160 Km/h.
Subitamente, movida por uma das suas ‘mágicas intuições’, sentiu que conseguiria atrasar o tempo para chegar ‘mais depressa’ à outra cidade. Como o automóvel não atingia uma velocidade mais elevada, sentiu, dessa estranha forma, que poderia atrasar o tempo. Fazê-lo “correr” mais devagar. Foi como se farejasse no ar essa possibilidade. Imediata e instintivamente pô-la em prática em prática, intentando/concentrando-se em atrasar o tempo...
As cidades distavam de 100Km entre si.
Quando chegou ao destino olhou para o seu relógio de pulso. Tinham passado 22 minutos.
Fez rapidamente as contas. Mesmo que tivesse viajado sempre à velocidade máxima (160 Km/h) o melhor tempo possível seria de 37 minutos e meio!
Íris fez as contas de novo: (60 min x 100 Km) /160 Km = 37.5 min. Estavam correctas.
Olhou para o relógio do automóvel procurando confirmar se o seu relógio estava bom.
Estava. Tinha feito o percurso em 22 minutos!
Nunca mais repetira a experiência e agora tinha pena de, nessa ocasião, depois de ter saído do veículo, não se ter lembrado de olhar os outros relógios da cidade para ver se havia algum desfasamento entre o tempo que marcavam e o dos seus relógios – o de pulso e o do automóvel.
Na realidade, para Íris ter chegado à cidade destino em apenas 22 minutos – sem qualquer alteração temporal – então o automóvel teria de se ter movido à elevadíssima velocidade de 273 Km/h, o que era de todo impensável para aquele motor convencional de 1300 c.c.
Apesar de nessa altura não ter visto se havia desfasamento entre os seus e os outros relógios, estava inclinada para supor que era mais provável que não houvesse, pois de contrário, mais tarde ou mais cedo, ter-se-ia (talvez) apercebido que havia uma diferença de... 37.5 min – 22 min = 15.5 min. Uma diferença de 15 min. e meio não era assim tão pequena para passar despercebida, mas, naquela época não estava a trabalhar e não tinha horários. O que deixava em aberto a possibilidade de que tivesse reparado em tal diferença vários dias mais tarde e não se tivesse lembrado de a relacionar com esse acontecimento... “Mhmm... mesmo assim não estou muito inclinada para essa possibilidade.”
Íris voltou à questão pertinente do ponto de partida dessa hipótese:
“Será que o tempo existe, de facto?”
“Existe alguma prova concreta da existência do tempo?...”, interrogou-se Íris, ”se nem sequer se sabe bem o que é!...”
“Claro que existe algum fenómeno temporal mas isso não é propriamente a mesma coisa. Podemos trabalhar com esse fenómeno, chamar-lhe tempo, medi-lo, etc., mas isso não significa que ele de facto exista como dimensão, qualidade ou algo por si mesmo independente, como o concebemos...”
“Temos a sensação de que o tempo se move, passando por nós de uma forma incontrolável, incontrariável.”
“Não serão as nossas consciências a mover-se?”
“Talvez assim:”, intuiu Íris.
O tempo seria um movimento aparente, resultante do movimento das consciências pela realidade segundo as linhas de um campo de forças.
Ou segundo o sentido de um fluxo.
O fluxo mais tendente, mais cómodo, mais estável da natureza intrínseca da existência. Ao qual aderimos mais facilmente e por isso temos todos a mesma sensação comum da “passagem do tempo”.
Quando viajamos de comboio voltados para trás, temos a sensação de que a paisagem passa por nós e nos deixa cada vez mais para trás. Mas sabemos que, afinal, somos nós que nos movemos através da paisagem – para a frente e deixando-a para trás.
Segundo a relatividade de Einstein, todo o movimento é relativo ao sistema referencial tomado (ponto de referência).
A nossa consciência comum tem um campo de acção – Percepção + ‘Actuação’ – muito pequeno, muito reduzido, muito pouco abrangente. O nível da ‘actuação’ é, ainda, muito menor do que o da percepção, restringindo-se a actuar apenas em determinadas partes e mecanismos do nosso corpo.
Uma consciência expandida teria possivelmente outra abrangência, ao nível da percepção – de uma maior área da estrutura da realidade. Também seria muito mais abrangente ao nível da ‘actuação’ – que deveria ser completa sobre o nosso corpo e sobre o meio da nossa realidade envolvente.
“Assim”, pensava Íris, ”surge-me a ideia de que o tempo poderá ser um movimento ilusório ocasionado pelos limites da nossa consciência ainda atrofiada.”
“Ou talvez sejam as nossas consciências a deslocarem-se e não o tempo.”
“Será o Tempo, o efeito da deslocação das nossas consciências?...”
“A deslocarem-se em conjunto, como os dipólos de partículas electricamente carregadas e orientadas/alinhadas ao longo das linhas de um campo de forças... ou ao longo das linhas do fluxo induzido por uma diferença de potencial entre dois eléctrodos...”

Hipotética operação t:
“...Seria então, certamente possível, um deslocamento contrário ao sentido desse fluxo, ou até em diferente direcção.”
“Mas, para tal, deveria ser necessário contrariar essa tendência geral, essa tendência ‘mais estável’ que, ao fim e ao cabo, seria o próprio fluxo.”
“E como os seres e as coisas têm tendência a aderir ao movimento ou caminho mais económico (menor dispêndio de energia), isso explicaria porque, pelo menos a maior parte das entidades conhecidas, aderira a esse movimento.”
“O mesmo não se passaria com algumas entidades”, pensou Íris, “como por exemplo com o neutrino ou outras partículas ainda por identificar.”
Voltou a lembrar-se do exemplo do comboio.
“Ao viajarmos de comboio voltados para trás, temos a sensação / ‘consciência’ de que é a realidade à nossa volta, a paisagem, que se está a mover. De uma forma algo semelhante à “consciência” que temos de que ‘o tempo passa por nós’.”
“Mas, pelo menos no caso do comboio, a realidade não se move. O que se move é o nosso ‘centro de percepção’, ou aquilo que , por vezes, também chamamos de ‘consciência’.”
“Bem, se assim fosse, então para realizar uma operação temporal, não seria preciso operar no tempo, mas sim realizar uma operação da nossa consciência...”
“Mhmm... o que, aparentemente seria muito mais acessível, viável e elegante”, reflectiu Íris com satisfação.
Realizar uma Operação da Consciência...
Seria uma hipótese a admitir:
A de que, ‘numa deslocação temporal’, é a nossa consciência que se move. E a realidade, ou melhor, a existência é sempre a mesma, omnipresente e coexistente.
Mas, partindo dessa hipótese, qual seria então o tipo de operação de consciência que poderia provocar aquilo que percebemos como uma alteração temporal?
Esta realidade, ou suposta ‘ilusão de realidade’ será variável conforme o tipo de consciência que possui o ser que a percepciona?...
...Deveria haver, então, diferenças no “sentido do tempo” dos outros seres vivos.
O que conduziu Íris a formular uma hipótese pertinente...
Hipótese sobre a natureza da existência:
Será que a realidade não passaria, afinal, de um substrato muito elementar de indefinidos campos ou feixes de energia? Os quais conteriam em “bruto”, em potencial, múltiplas possibilidades de formas, substâncias e entidades imanifestadas?...
...E que a “viagem” efectuada pelas nossas e por outras consciências, é que lhe daria as formas, entidades, etc. que percepcionamos?...
...E que outras espécies de consciência, diferentes da nossa, ’cristalizariam’ outro tipo de formas, de entidades, etc.?...
...Tanto mais diferentes quão diferentes as consciências que as percepcionariam?
“Gostaria muito de encontrar uma experiência que pudesse provar a veracidade ou falsidade [ou talvez um terceiro termo(?)] desta visão da natureza... é que a ser assim – reflectia Íris – toda a nossa concepção da vida, da natureza e da existência ficaria revolvida do avesso. Seria uma viagem de 180º nos nossos conceitos. Uiii... até dá voltas ao estômago!... porque inverter-se-iam, de certa forma, os papéis: o ‘subjectivo’ passaria a ser o ‘objectivo’, e o ‘objectivo’ o ‘subjectivo’!!”
“Custa-me aceitar tal hipótese”, pensou Íris franzindo a testa, “é demasiado radical. Mas não estou a imaginar como poderei refutá-la. Preciso pensar em alguma forma de a pôr à prova!... preciso mesmo, é muito perturbadora. Mas será que não é mesmo assim?”
“E se fosse?”
“Por muito absurda que lhe parecesse aquela ideia, não a podia pôr de parte, não a podia rejeitar. Pelo menos de ânimo leve.”
“Havia que reflectir sobre ela.”
Por vezes, eram as hipóteses aparentemente mais absurdas que abriam as portas a grandes descobertas.