Emmanuel  de  Cériz

IGNIUS

 .O Mistério da Transmutação.

 

Cap - 8

 


 

entrada. Abri-lhe a porta.

Ele estava encafuado no seu estimado sobretudo bege e, debaixo do braço, trazia um volumoso livro.

Estendeu-mo imediatamente dizendo:

— Olha é o “Livro dos Mortos”!

Como não podia deixar de ser, peguei-lhe e, ao folheá-lo, comecei irremediavelmente a acordar.

O que me “saltou logo à vista” foi que todo ele estava repleto de anotações e as suas páginas estava intercaladas de inúmeras pequenas folhas cobertas de hieróglifos escritos à mão...

— Sim... já tinha ouvido falar dele — comentei.

— Sim? então ouve: eu tinha-o há treze anos e só agora o ‘Descobri’! Nunca o tinha conseguido ler até ao fim!...

Apesar de me ter encantado o “tom” de certas passagens, nunca lhe tinha atingido o significado. E, por fim, deixei-o esquecido na estante. Todos estes anos!

Todos estes anos — cerca de treze! — o livro permaneceu esquecido e ignorado...

— E porquê?...

— Não sei... quando o comprei estava demasiado entusiasmado com tudo aquilo que esperava encontrar nele. Imaginava descobrir aí revelações extraordinárias de uma sabedoria perdida...

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

— E então?

— E então... — continuou Atlan — na época, tudo o que nele encontrei foi um amontoado de textos incompreensíveis e uma encruzilhada de nomes de deuses e deusas que me pareceu imensa(!) e indecifrável.

Acabei por admitir a hipótese de que não passava de um conjunto de Textos Religiosos: rituais, cânticos e hinos...

...e apenas isso!

Lembro-me — prosseguiu Atlan com o olhar preso no infinito — que o tinha procurado movido por uma intuição de que encontraria nele muitas soluções... e, naquela altura, não o consegui atingir.

— E então... como é que ficaste assim tão alvoroçado?

— Então, ontem à noite ao arrumar uns livros, por “acaso”, deparei com ele. E, ao abri-lo à sorte tive uma surpresa: estava tudo lá!

— Tudo? Tudo o quê?

— Tudo aquilo que eu e o nosso pequeno grupo de amigos temos andado a investigar ao longo de todos estes dez anos... o período em que o ‘livro’ permaneceu esquecido:

todas as novas concepções que desenvolvemos ao longo deste tempo de pesquisa...

...só à luz destas noções é que o livro faz sentido!

O “Livro dos Mortos do antigo Egipto” terá começado a ser escrito há cerca de 7.000 anos!...

E agora, cada vez estou mais convencido de que se trata dos vestígios de uma sabedoria esquecida e perdida no tempo.

Na realidade, o livro nem sequer se chamava “livro dos mortos”. Apenas foi intitulado assim pelos que o encontraram e traduziram. Designaram-no assim porque o encontraram em túmulos e associado a rituais funerários.

Os títulos possíveis e talvez mais adequados com o que o texto se autodenomina são:

“Livro das Metamorfoses”,

“Livro da Luz”,

“Livro da Saída”,

“Livro da Saída para o Dia”,

“Livro da Saída para [a Luz de] o Dia”,

ou “Livro dos Efeitos sob [a Luz de] o Dia”.

“Dia” tem aqui um sentido transcendente, penso que poderá significar o “dia divino” ou “dia dos deuses”, por oposição ao “dia” comum, humano. O “dia” do Homem seria a noite (ou eclipse) dos deuses, e vice-versa.

O conteúdo do “Livro” é tudo aquilo que eu, Íris, Elin, Aleathor, e Elya Lang temos andado a pesquisar...

Está tudo!

É fascinante! — exclamou extasiado — Por isso é que na época se me afigurou como um enorme confusão: incompreensível / inexplicável / indecifrável!...

E toda aquela avalanche de deuses e multiplicidade dos seus nomes era demasiada... Principalmente para nós, herdeiros de uma cultura monoteísta.

...E depois há, no livro, expressões que até há bem pouco tempo não poderiam fazer sentido: como, por exemplo, o protagonista humano dos textos afirmar que não só é filho de um deus como É, simultaneamente, esse próprio deus, e que É, também, todos os outros deuses!...

...afirmações admiráveis, mas que só fazem sentido à luz do “axioma I do transmutalismo — “uma coisa é igual e simultaneamente diferente de si própria (A=A Ù A¹A) — e à luz da noção de “nuvem de possibilidades” — “uma coisa é também todas as outras, todas as suas entidades alternativas”!

...e principalmente: ‘o porquê’ do “morto” (orador) dizer que “ele É” um deus!...

Porquê?...

...Só agora, à luz do transmutalismo, esta identificação de um ser humano (o orador) como a natureza de um deus faz sentido. O indivíduo, ao afirmar que “eu Sou” está a identificar-se com a natureza do ‘tipo de ser’ em que quer transformar-se.

É uma “afirmação” transformista!

É uma ‘actuância’.

É um processo de “clivar”, da sua ‘nuvem de possibilidades alternativas’, a espécie de entidade em que quer tornar-se.

Ou Re-tornar-se(!)

E, mais uma vez, o texto é aqui perfeitamente coerente com o transmutalismo, porquanto o “orador” afirma que “é filho de um deus” — “que ele já foi um deus” — e que, ao querer transformar-se num deus, apenas pretende voltar a ser aquilo que, afinal, já/sempre foi...

...É o regresso à sua natureza perdida.

À sua natureza transtemporal...

É um processo de recuperação da Memória. E para o fazer é necessário saber a multiplicidade dos nomes dos deuses e os seus significados.

Aliás, esta é a tónica característica e dominante ao longo do Livro: cada vez que o orador humano se dirige aos deuses, é para o fazer de uma forma em que logo se identifica como sendo, ele próprio, um deles — geralmente o mais ilimitado — e, a partir daí, torna-se difícil distinguir quem fala – se é um homem ou um deus!(?)... porque ele assume, normalmente, as qualidades do deus ao qual se dirige!...

O orador começa falando como um humano e acaba falando como um deus.

Não admira que muitos historiadores tenham achado o Livro como “um texto confuso e incompreensível”...

Mas ‘essa’ é precisamente a grande chave da ciência encerrada no “livro dos mortos”:  a Identificação. O assumir das nossas múltiplas naturezas divinas. Ou das nossas naturezas divinas múltiplas...

Os multideuses egípcios são, também, ideias-símbolo. E cada uma delas parece encerrar, ou sintetizar, enormes significados.

...É a grande alavanca para nos tornarmos aquilo que ‘somos afinal’.

É o grande e incompreensível Paradoxo da Transmutação (A=A Ù A=B, sendo B¹A): admitimos que poderemos ser, ou transformarmo-nos, em algo intrinsecamente diferente daquilo que somos, Mas, o compromisso que restabelece a coerência à desigualdade (B¹A), ou “des-igualdade”, é que esse “ser diferente” do que somos, seja afinal igual a nós, ao que somos.

— Não compreendi nada! — exclamei confusa.

— Bem, talvez nunca o possamos compreender totalmente... no entanto, repara: o axioma transmutalista admite o seguinte paradoxo — A=A Ù A¹A. Ora, apesar de tudo, mesmo dessa ausência de limitações de “A”, é necessário que haja coerência lógica e formal na expressão matemática. Sendo assim, “A” só poderá ser diferente de si próprio se essa diferença for a si mesmo. Isto é, se essa diferença for, afinal, uma igualdade. E, todavia, não deixa de ser diferente... et puoro se muove, como dizia Galileu.

Nós só poderemos ser deuses porque, afinal, o somos.

Ainda que talvez numa fase diferente...

...e como “Fase” é um fenómeno temporal e eu estou cada vez mais convencido de que o Tempo não existe, pelo menos como dimensão...

...então nós fomos deuses, o seremos, e somo-lo ao mesmo “tempo” que “agora”. Todas as formas coexistem num mesmo “tempo”. O que nos separa são diferentes fases da consciência e da Memória. Porque o tempo é apenas o “efeito” (destas duas coisas) que nós percepcionamos. É apenas um efeito. A reduzida tridimensionalidade (e meia) da nossa consciência é o que nos leva a atribuir ao tempo a qualidade de “Dimensão”: não existe qualquer prova irrefutável da existência do “Tempo”...

Na realidade, o Tempo é a nossa grande e apertada Prisão.

Mas como tudo aquilo que nos separa daquilo que fomos e seremos é, afinal, o movimento da nossa consciência, o seu atrofiamento, a perda da nossa Memória Global e, principalmente, o muro da dúvida...

...tudo o que temos a fazer para nos tornarmos no que verdadeiramente somos é EMERGIR.

Nunca encontrei um livro que fosse tão concordante com os princípios da Física Quântica, da Teoria Semântica dos Sons e do Transmutalismo!...

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

O “Livro das Metamorfoses” é a grande Saga de Osíris: a epopeia do deus do Crepúsculo que, ao deixar-se mutilar, fragmentar e disseminar — a quantização e o “scattering” das partículas do mundo quântico — pelos “quatro cantos” do mundo, morre como deus e dá, assim, origem à espécie humana. Através da qual espera um Dia vir a renascer. O Rá-nascimento, o renascimento de Rá, o deus solar que ele tinha sido...

— Mas Osíris não é o deus da “morte”? — interrompi-o finalmente.

— É, e “mortos” é o que nós somos: deuses mortos.

    À espera, como Osíris, de ressuscitar.

    Ele próprio só o poderá fazer através de nós: que somos os seus fragmentos. Enquanto não o fizermos, seremos escravos dela, da morte.

    E nós também só poderemos ressuscitar através dele: identificando-nos com a nossa verdadeira natureza de um deus. Penso que é esse o significado de uma passagem do Capítulo XLII do “livro dos mortos”:

Impossível [ou sem sentido] retornar àquela época remota em que o Céu foi criado por mim, em que a Terra foi separada; em que foram colocados em lados diferentes os seres nascidos do Céu e os nascidos da Terra. Uma vez separados, já não voltarão a reunir-se na fonte primeira...

A fonte primeira... o “Nascente”, a alvorada da humanidade, equivalente ao “Crepúsculo” dos deuses.

O próximo “ponto de encontro” será então no “Poente”, no ‘nosso’ poente. “Poente” do Homem Û “Re-Alvorada” dos deuses...

Magic is in the Twilight Zone...

 

É claro que, possivelmente, nenhuma das quatro ou cinco traduções é exacta, como podes ver através de duas das traduções destes pequenos fragmentos do Capítulo CXXV — explicou Atlan mostrando-me uma das diversas folhas cobertas de hieróglifos e anotações com que tinha intercalado o Livro:

 

 

...Mas, mesmo assim, o “Livro” é fantástico. Todas as concepções principais que desenvolvemos a partir do: Transmutalismo, da Física Quântica, da Investigação Histórica Comparada, e da Semântica Fonética Quântica estão aqui reunidas.

...Durante treze anos o Livro permaneceu “à espera” que nós descobríssemos as noções fundamentais que nos permitiriam compreendê-lo!...

Já telefonei à Tália. Ela ficou fascinada com o que lhe contei sobre o livro e vamos encontrar-nos ao fim da tarde no I.E.Q.

Sabes, a ideia de Elya Lang, de que a verdadeira “Inteligentzia”, a verdadeira sabedoria, “Sä”, é indissociável do divino — da sabedoria divina — parece fornecer-nos uma pista para a fonte da qual terá surgido este livro...

(Quando o Homem procura obter uma   ‘Inteligência  própria”,   privada   e

dissociada do todo, privada da projecção mais elegante e aperfeiçoada das ideias, da  divindade — dá-se o fenómeno da “Torre de Babel” e de “Hannibal Lecter”...)

A “perfeição” das ideias e da sabedoria é indissociável do todo.

Uma ruptura com o resto de nós, com o todo, resulta sempre em aberração. Porque só no Todo podemos obter a projecção máxima, mais ‘elegante’, das ideias e dos processos de pensamento... da verdadeira inteligência.

Se a dissociarmos — se provocarmos essa ruptura — a inteligência degenera em perversão, em egocentrismo, em ABERRAÇÂO: como não pode projectar-se “para cima”, para os limites da sua   elegância — deriva, involui, degenera, “para baixo” — para a verdadeira solidão cósmica, dissociada do todo, e projectando-se negativamente para o isolamento do egoísmo, da depravação, do crime, da exploração, de uma existência sem sentido, e até do assassínio...

...É o Mal:

O mal é a ignorância, é a dissociação do Todo.

É a existência sem amplo sentido. Procurando apenas “entreter-se”, recrear-se, para “queimar” o tempo.

É a existência circular, concêntrica.

[Viver em círculos]

Viver no plano horizontal.

Longe do Homem.

Desprezando a recuperação da nossa verdadeira natureza perdida.

Como não há movimento ascendente, só poderá haver descendente.

Involução. Com alguma conservação, talvez.

 

É a grande diferença.

 

O Mal apenas procura queimar o tempo. Manter-se. Permanecer no Poder o maior tempo possível. Mantendo o Homem no obscurantismo, ainda que por vezes o mascare de ciência ou intelectualismo. Para o acalmar, para tranquilizar a sua “consciência”...

90% de tudo quanto existe é propaganda.

 

...Enquanto que nós lutamos contra o tempo, procurando recuperar a nossa plenitude:

De sermos finalmente livres do jugo da existência.

...Procuramos recuperar a nossa verdadeira natureza perdida.

...Recuperar a Memória.

Libertarmo-nos do jugo da Ignorância e do Obscurantismo.

 

Respirarmos; por fim; o ar livre e puro da Liberdade existencial...

...

                                 

Ela, como sempre, acolhera-o ali, naquele refúgio das águas revoltas...

Enquanto folheava, com curiosidade, as dezenas de páginas intercaladas que Atlan cobrira de hieróglifos rabiscados. “É que nem sempre as traduções são as mais exactas...”, explicara ele.

Ofereceu-lhe um pequeno almoço que o retemperou daquela noite acesa, de investigação imparável. Que sucedia sempre que o pensamento de Atlan disparava, alucinante e desenfreado, engolindo, às golfadas, anos luz de distância mental.

E foi assim, mais tranquilo, que ele deixou aquele pequeno Oásis    e regressou, finalmente,  para o nevoeiro de onde tinha surgido.

Ela era Íris.

A sua Íris!...

Ou, pelo menos, fora assim que ele tinha decidido começar a chamá-la.

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

Capítulo LXXII

Para abrir caminho no Mundo

 

 

Salve, Oh! Senhores da Ordenação dos Mundos, Vós que, isentos de Mal, permaneceis na Eternidade e na Infinita Duração!

 

Eis que empreendo um Caminho

que me conduzirá a vós.

 

Eu, Espírito Santificado,

percorro todas as Formas do vir a ser.

 

Meu Verbo mágico me confere o poder.

Concedei à minha boca

a Palavra de Potência [...]

pois eu vos conheço e conheço vossos nomes!

 

Em verdade [...] é meu filho,

saído do meu Corpo,

quem me nutre...

 

Que possa eu passar à vontade

por todas as Metamorfoses

e descer e tornar a subir em minha Barca,

[...]

pois eu sou o deus de duas cabeças de Leão!

 

do “Livro da Saída para a Luz de O Dia”,

ou “Livro das Transmorfoses”,

ou “Livro dos Mortos do Antigo Egipto”.

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

    movimento

          de

               Vitória

 

            (“...conquista!”, exclamou Tália McFee.)

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

              — Que bom — exclamou Íris fascinada — um de nós conseguiu!... era o que eu mais queria, que pelo menos um de nós conseguisse transmutar-se!

 

—  Sempre foi esse o grande objectivo do Transmutalismo: A Convergência.

...Se todos aqueles que desejassem voltar a Ser — prosseguiu Aleathor — unissem os seus esforços de pesquisa, seria muito mais provável que alguns conseguissem. Em vez de se encontrarem cada um para o seu lado, dispersos e isolados... sem qualquer Sinergia.

— Sim — confirmou Elya — essa é a grande diferença entre todos aqueles que são apenas Ígneos... e aqueles que já são AKINs!...

— E a diferença está em que os Ígneos são todos aqueles seres de elevada energia (“ígnea”), mas que, como referiste, trabalham e aspiram sós... porque ainda estão isolados e dispersos pelo mundo, sem comunicarem entre si. Vivem num mundo que não os compreende: porque aspiram a um Mundo Mais Belo...— disse Elin reflectindo.

—...Enquanto que os AKINs são todos os Ígneos... que são dignos desse nome... interligados!... — continuou Tália McFee — ...cada um de nós já não é mais um Eu isolado, dissociado, no Mundo...

...Eus Somos Todos nós!

...Somos um Ser Colectivo.

— Sim. — confirmou Atlan — Já não faz sentido dizer: Eu Sou...   Agora, finalmente(!), após todos estes milhares de anos de obscurantismo, de dor, de solidão, de escravatura sob o real, de dissociação e isolamento, posso dizer:

Eus  Sum

 

EUS !

 

...e não o falso Deus do obscurantismo e das prisões existenciais.

 

— Agora, Somos EUS que fazemos a própria  REALidade*.

 

EUS REI !

 

* significado essencial e original de “REI” = “gestor e REcriador do REAL, da REALIdade. Um REI era, no Egy-Pt-Us e em outros povos primordiais, um dEUS na Terra...

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)



 

Reversibilidade

 

“A irreversibilidade é uma consequência da introdução explícita da nossa ignorância nas leis fundamentais.”                                                  Max Born,

Natural Philosophy of Cause and Chance

 

(...)Não nos é possível, todavia, reproduzir esta operação numa experiência, embora seja provável que se verifique nas estrelas. O que podemos é observar uma reacção-sucedânea, matematicamente similar, a única observável, pois o cientista e os seus instrumentos permanecem escravos da irreversibilidade que lhes é imposta pelas leis da termodinâmica.

“Física Nuclear”, Robert Gouiran

 

Ela subiu vertiginosamente as escadas que conduziam à plataforma no topo do edifício.

Mal podia esperar.

Agora que era uma metaH.

 

Todo um universo novo, de mil prazeres, se abria diante dela.

Acabara-se a escravidão.

Agora, finalmente, era senhora de si, do seu corpo e do seu meio.

Mal podia esperar.

 

Tantos a tinham considerado “uma herética”, uma rebelde, uma sonhadora de impossíveis...

 

Mas, afinal, ela transmutara-se mesmo.

 

Mil sensações novas esperavam por ela.

Mil cores, mil tons, mil sons.

 

Mas, para começar, servia isto mesmo. Porque ela era ainda uma criança no longo caminho da eternidade.

E o fim das escadas já estava próximo.

Mal podia esperar.

 

Tantos a tinham considerado louca...

mas ela tinha-lhes explicado que “não era nada de mal” e que tinha todo o direito a ser livre.

Tanto direito, pelo menos, como eles a serem prisioneiros do seu conformismo. De aceitar a sua pobre sorte. Até acabarem por acreditar que tudo o resto era impossível ou profano.

Para eles — era pecado — querer ser como os deuses que adoravam.

Tinham vergonha de se acharem com os mesmos direitos à liberdade, ao poder e ao amor.

...E à eternidade!

 

 

Estava cada vez mais próximo.

Faltavam somente uns lanços de escadas.

 

Não era nada de mais. Apenas uma pequena experiência.

Simbolizava apenas um grito de triunfo e desafio.

Acelerou o passo.

Mal podia esperar.

 

 

Agora ela já não era como antes.

Agora, finalmente, contra tudo e contra todos e, sobretudo, contra todas as expectativas...

...ela transmutara-se!

 

Agora sim.

Agora, sentia-se ela própria.

Por fim.

 

 

Chegou a temer mil vezes que não o conseguisse.

Chegou a temer, mil vezes, que se tivesse de submeter, como todos os outros, à prometida imortalidade de segunda classe.

Na “primeira” só viajavam os deuses.

Pelo menos nisso residia o pudor dos crentes, dos devotos.

 

 

Agora, subia os degraus dois a dois.

Mas o cansaço era uma sensação com a qual brincava.

Não a incomodava.

Agora nada a incomodava.

– Porque sabia que podia REVERTER TUDO.

Por isso, a fadiga era uma sensação com a qual brincava, deixava elevar à dor, e a seguir sublimava em prazer!... depois estourava como bolas de sabão e desaparecia.

...Para a seguir renascer com os movimentos tímidos de uma borboleta...

 

Em suma, libertara-se da prisão da IRREVERSIBILIDADE!...

 

Era a irreversibilidade que tudo fazia mau,

que tudo aprisionava.

Era a causa da dor.

E do sofrimento.

 

Estava na mão dos “deuses”. Apenas.

 

 

Tropeçou nos degraus.

– Nisso residia todo o encanto!

Como era bom continuar a ser humana.

Manter em si essa parte.

Será que a teria se não tivesse perdido, por um longo tempo, a sua anterior natureza de um deus?

Se não tivesse passado por mil tormentos?

Desprovida de toda a sua força?

 

Levantou-se de um pulo, com a agilidade de um Lince.

 

Agora já via a porta que dava para a plataforma exterior do topo do edifício.

Com ansiedade e impaciência, perfeitamente humanas, abriu-as de rompante, com a força de um deus.

 

O ar fresco engoliu em golfadas.

A atmosfera flutuou-a em altitudes.

 

Com meia dúzia de passos ágeis, cobriu a distância que a separava de uma das bermas do topo do edifício.

Que dava para o abismo.

 

Quantos pisos? oitenta, noventa... não se recordava.

 

A ansiedade era grande. A antevisão do prazer.

Não podia esperar mais.

 

Saltou no abismo.

 

...

 

O seu corpo atingiu, finalmente, o solo.

 

E esborrachou-se em mil pedaços.

 

O impacto fora horrível.

A dor lancinante.

 

Sentira a carne rebentar.

Sentira os ossos a estourar e a perfurar o corpo em mil rasgões.

O  seu cérebro explodiu e espirrou pelas redondezas...

 

...

 

O seu corpo jazia ali.

Espalhado na periferia de um lago de sangue.

Sangue.

 

...

 

Mas nada disso fazia mal!

Agora ela era uma metaH.

Esmagara a irreversibilidade.

E o seu prazer estava em integrar, de novo,

todos os seus pedaços e...

Restaurar-se.

REGENERAR-SE.

 

...

 

E aí está ela de novo em pé:

Sacode a cabeça e exclama:

– Uff!... que experiência!


 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

 EUS KAD I

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


 

 

 

A Escultora Tália McFee

 

Até agora o homem tem pensado e actuado.

Quando passar também a transmutar, todo o universo será diferente.

A transmutação das coisas e dos seres passará a ser um fenómeno quotidiano.

 

“Do ponto de vista quântico, um electrão não é apenas um electrão. Padrões de energia deslocáveis tremeluzem à sua volta, financiando a imprevisível aparição de fotões, protões, mesões, e mesmo outros electrões. Em resumo, todos os parafernais do mundo subatómico se agarram ao electrão como um manto evanescente e intangível, uma capa de abelhas fantasmas agitando-se em torno da colmeia central.

“Quando dois electrões se aproximam, as suas capas emaranham-se e a interacção tem lugar. As capas são justamente a expressão quântica do que anteriormente se considerou como campos de forças.

“Os electrões nunca podem ser isolados do seu séquito de partículas fantasmas. Quando perguntamos -- «O que é um electrão?» -- a resposta não é a partícula central apenas; temos de comprar todo o pacote, inclusive as partículas fantasmas que produzem as forças. E quando se chega aos hadrões, que têm uma estrutura interna, a identidade da partícula torna-se ainda mais nebulosa. Um protão contém de algum modo quarks, que, por seu turno, são aglutinados por gluões. Existe aqui uma espécie de ‘estranho arco’: as forças são produzidas por partículas que, por seu lado, são produzidas por forças...

“No caso de uma partícula como o fotão, esta recorrência significa que o fotão pode apresentar muitas facetas diversas. Ao ir buscar energia emprestada, pode transformar-se temporariamente num par electrão-positrão, ou num par protão-antiprotão. Foram feitas experiências para os apanhar em flagrante. Uma vez mais, um fotão ‘puro’ nunca pode ser destilado a partir desta complexa rede de transmutações.”      Paul Davies

 

     A parede do quarto, programada para emitir aquele tipo de notícia, iluminou-se.

     E foi com a transmissão da exposição de escultura viva que Atlan acordou:

     “... e  a Vernissage ocorrerá no Grande Domo Transmutalista, às 21h do dia de hoje, sexta-feira...”, prosseguia a emissão.

     Saltou da cama radiante.

     Finalmente ia poder ver o que tanto ansiava.

     Agora, no novo mundo-T, a inovação ganhara espaço.

     E, se havia algo que Atlan não podia deixar de ver, era a escultura viva da Tália McFee.

 

À chegada ao Grande Domo, em Euskadi, João já o esperava.

¾ Fenomenal, ainda bem que vieste.  Anda, entremos.

João já anteriormente presenciara a escultura de Tália.

¾ Vais ver um exemplo vivo da transmutação actuante...

 

A sala era grande e concêntrica. No seu centro estava uma plataforma circular. O tecto era constituído por uma alta abóbada de cor celeste.

As luzes baixaram de intensidade e a sala ficou envolta em penumbra.

 

I Acto                             

 

Um vulto sobre a plataforma.

Um foco de luz âmbar incide na figura.

É um corpo comum de mulher.

É o corpo nu de Tália.

    

Em transparência, começam a prolongar-se do seu corpo figuras hologramáticas, como extensões.

¾ São as projecções alternativas do seu ser ¾  murmura João ¾ recordas-te do axioma? “...uma entidade é igual e simultaneamente diferente de si própria, contendo em si todas as entidades alternativas”?

Atlan assente que sim sem deixar de olhar para o que se está a passar sobre a plataforma.

As projecções fantasmáticas de Tália, cerca de uma dúzia, ganham consistência à medida que o seu próprio corpo a perde e se torna cada vez mais difuso e transparente. Algumas parecem ser a própria Tália mas mais velha ou mais nova, outras parecem ser, ainda, formas antropóides. As restantes em nada se assemelham à escultora.

As projecções multiplicam-se em centenas, milhares de formas que se interpenetram e confundem até serem cada vez menos distintas umas das outras.

     O seu corpo reduziu-se, entretanto, a um ponto de luz brilhante circundado por uma nuvem de possibilidades... de milhares de formas alternativas e coexistentes.

     ¾ É a “nuvem de possibilidades” de Tália ¾ explica João.

     A nuvem assume agora uma forma esférica translúcida de múltiplos reflexos policromáticos... como cintilações de um diamante.

     Começa a contrair-se em direcção ao seu centro, o ponto de luz brilhante.

Ao contrair-se, os milhares de conformações [possíveis] afundam-se num núcleo mais denso, com um número cada vez menor de imagens interseccionadas.

Essas imagens vão-se engolindo/absorvendo umas pelas outras até se incharem/tornarem na figura de Tália.

Tudo o que restava agora era, de novo, o seu corpo nu, envolto por uma auréola difusa de cor dourada.

 

 

II Acto

 

O corpo de Tália sobre a plataforma.

No lado oposto da plataforma há uma cascata e uma pequena lagoa onde se acumula a sua água.

 

Duas formas holográficas semitransparentes acompanham/ confundem-se com o corpo de Tália.

É a forma de uma águia branca e de um golfinho de prata.

As três formas de Tália integram-se/clivam-se numa só e vemos dela voar uma ave imensa que cruza/trespassa a água em queda livre da cascata.

Silêncio.

Subitamente, por trás da cortina das águas, vislumbra-se um vulto em aproximação.

A água espirra e dela surge um golfinho azul que mergulha na lagoa fazendo um grande splash.

Silêncio.

Projectando-se da água da lagoa, surge um feixe cilíndrico de luz escarlate que se prolonga até ao céu, agora visível na abóbada, ornado de nuvens fofas banhadas pela luz âmbar/laranja/fúlgida/dourada  de um sol quase poente.

O tubo de luz ígnea coalesce/aglutina-se num golfinho de fogo que salta e mergulha nas nuvens douradas em cabriolas de uma alegria irresistível que nos contagia a todos em ondas e se repercute pela sala fora...

 

III Acto

 

De novo o corpo da escultora, só.

Repentinamente, salta para a plataforma uma horda de guerreiros antropóides de aspecto feroz. Estão armados com lanças, machados, espadas e maças.

Correm para Tália uivando.

Ela fita-os e do seu corpo desprendem-se/arvoram-se/orlam-na três configurações: uma criança assustada, um lobo a rosnar de pêlo encrespado, um guerreiro couraçado de armadura metálica com as cores do fogo e um ancião de longos cabelos brancos e de expressão contemplativa e serena.

Vinda dos agressores, uma flecha atravessa-lhe o peito.

O sangue espirra.

 

O corpo de Tália torna-se menos nítido e as suas diversas configurações convergem/aglutinam-se/fundem-se/condensam-se no corpo do guerreiro de armadura fulva.

Tália-Guerreiro arranca a lança do seu peito num gesto rápido.

A fenda do seu ferimento volta a unir-se e o sangue é reabsorvido.

Os antropóides aproximam-se e envolvem-na desferindo-lhe uma profusão de golpes.

Acima da pequena multidão ergue-se a espada de Tália-Guerreiro brandida com a ferocidade de um relâmpago e abrindo uma pequena clareira ao seu redor.

Vários dos agressores tombam por terra.

Inesperadamente , sobem para a plataforma mais hordas de guerreiros que convergem para Tália e a envolvem num torvelinho esmagador.

A escultora é derrubada sob o peso demolidor.

Ouvem-se estalar ossos.

 

À volta do corpo de Tália, subjugado pelas dezenas de pés dos assaltantes, surge uma nuvem difusa e ténue cintilando com uma imensidade de configurações. Adensam-se na do ancião de longos cabelos brancos e expressão pacífica que se ergue, deslizando com a fluidez de uma enguia, por entre as pernas e braços dos agressores. Estes ficam, durante um momento, surpresos e imóveis.

O rosto do ancião contempla-os, absolutamente calmo e sereno. O seu olhar é tão intenso que parece trespassá-los e prende-los na imobilidade.

¾ Gradualmente, retira-lhes a realidade ¾ segredou  João.

Os bárbaros perdem a solidez. Os seus corpos tornam-se transparentes. Cada vez mais transparentes...

Desaparecem.

 

À volta de Tália, agora outra vez mulher, estão dezenas de flores rosadas.

 

A ampla sala ilumina-se e murmúrios  de admiração percorrem a assistência.

Atlan está radiante.

As novas meta-Artes  fascinam-no, mas esta Tália McFee... excede todas as expectativas.

¾ E a rapidez com que ela se consegue transmorfosear?!...  ¾ comenta Atlan.

¾ Verdadeiramente impressionante! E a arte com que o faz!... ¾ exclama João.

Nos corredores do Grande Domo toda a gente está empolgada. A adrenalina corre forte nas veias.

 

A luz começa finalmente a diminuir anunciando o início da última parte e as pessoas vão reentrando na sala e tomando os seus lugares.

A expectativa paira no ar.

“ O que é que ela nos terá reservado para o final?”, interroga-se Atlan.

 

 

IV Acto

 

Uma mulher comum sobre o estrado.

É, de novo, o corpo nu de Tália McFee.

As luzes apagam-se por completo.

 

Lentamente, começa a distinguir-se uma luminescência no corpo da escultora.

A luminescência vai aumentando de intensidade e, agora, o corpo de Tália é bem visível.

Os seus cabelos alongam-se e esvoaçam pelo espaço circundante. A sua tonalidade torna-se de um loiro brilhante, muito claro.

Os cabelos expandem-se agora em ondas por toda a sala.

A pele de Tália assume uma cor dourada, resplandecente.

A sua estrutura muscular enrijece-se e as curvas do  seu corpo tornam-se sinuosas... vibrando de sensualidade.

Os seus olhos passam do castanho ao vermelho rubi até se transformarem em duas estrelas rutilantes, de brilho dourado...

Toda a sala ondeia com espirais douradas formadas pelos cabelos de Tália.

Atlan não resiste à beleza magnética daqueles fios de ouro rubro e estende a mão para acaricia-los:

“Como são sedosos... e tão macios...”, pensa.

 

As pernas da escultora afastam-se, deslizando, e a estrutura do seu corpo confunde-se com as linhas de força de uma pirâmide cujo vértice se alonga cada vez mais, até atingir a abóbada da sala.

Espirais de luz envolvem-na dos pés à cabeça afilando-se até ao tecto.

Em redor dos seus ombros emanam extensões vibrantes de luz dourada e ouve-se o farfalhar de mil asas esvoaçantes!...

O ar agita-se em vibrações que percorrem toda a sala.

Desprende-se de Tália um som semelhante a um canto que aumenta de frequência até se tornar o timbre de um cristal...

O seu corpo, envolto pelo holograma de mil asas douradas, alonga-se, afunilando-se até à abóbada...

...e sublima-se/volatiliza-se num clarão de luz âmbar que se espalha por todo o tecto da sala e cai, sob a forma de uma chuva dourada, sobre a assistência que fica inebriada, pulsante/revivificada/incandescente, emanando um brilho ígneo de cor rosada...

 

 

 

 

 

 

Emmanuel  de  Cériz,   "IGNIUS - O Mistério da Transmutação"  (8)


  

 

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