Emmanuel de Cériz
IGNIUS
.O Mistério da Transmutação.
Cap - 9
O Cálculo Transmutacional
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (9)
Ele chegou... com milhões de raios e coriscos rodopiando à volta da sua sapiente cabeça, qual professor tornesol envolto em bolhas estralejantes.
Notava-se que acabara de sair dos confins de alguma galáxia abstracta e, por entre os ploc-ploc das pequenas bolhas de alheamento que pareciam estourar à sua volta trazendo-o para a realidade, vislumbrei-lhe aquele olhar levemente alucinado de quem estivera na “posse” de conhecimentos inauditos.
— Quatro horas para descobrir que não existe Espaço, não existe Tempo, não existe Gravidade, não existe Matéria, não existe Massa — desabafou atónito apontando para o pequeno café em frente onde estivera imerso em reflexões.
Segui-o, escadas acima, até ao seu pequeno gabinete no Instituto de Estudos Quânticos.
Elin era um físico-matemático.
Aquilo que muitos designariam por um físico teórico.
Mas não era tão teórico como isso.
Na realidade, realizara inúmeras experimentações, muitas delas não ortodoxas...
Por fim não resisti a perguntar:
— Mas, se não existe nada disso — espaço, tempo, massa, gravidade, matéria — então o que é que existe?!
— Cordões de luz. Cordões de luz é tudo quanto existe...
E foi então que, mostrando-me as anotações que fizera no seu caderno, durante o lapso hiático que passara no pequeno café em frente, me começou a explicar o encadear das suas reflexões.
O ponto de partida estivera relacionado com os neutrinos, partículas quânticas desprovidas de massa quando em repouso...
A Física considera, actualmente, que existem quatro forças (ou interacções) fundamentais que agem sobre os componentes da natureza: a gravidade, o electromagnetismo, a interacção nuclear forte e a fraca. Gravidade – a força que actua entre corpos com massa; Electromagnetismo – a força que actua entre cargas electromagnéticas e que, “ligando” os electrões ao núcleo, forma o átomo; Interacção Nuclear Forte – as forças que mantêm coesos as protões e neutrões no núcleo dos átomos; Interacção Nuclear Fraca – as forças responsáveis por certos tipos de decaimento nuclear, como por exemplo a desintegração do neutrão.
Assim, poderíamos dizer que a velocidade da luz é a velocidade da energia.
E, supondo que a energia é o próprio tecido existencial...
Então, talvez pudéssemos considerar que esses quantos de energia, na realidade, não se movem...
Mas apenas acompanham — ou são — o tecido existencial em si mesmo.
Insinua-se-me assim a ideia de que a luz não se move!...
...apenas acompanha — ou é — o tecido da existência.
Na luz — ou, “à velocidade da” — tudo é eterno: não há Tempo, nem Espaço.
(Só há energia.)
...O que parece indicar que o que produz Tempo e Espaço é a deformação do “tecido” flexível e plástico da existência... E, no fundo, até nem haverá qualquer tecido da existência: haverá apenas uma espécie de “corpo”, uma espécie de “estado”. O que provoca aquilo que para nós se assemelha a um tecido são as deformações de corpos com massa (gravidade). Essas massas produzem ondulações, irregularidades, curvaturas — criando assim uma espécie de textura à qual associamos, normalmente, um tecido.
Porque, no fundo, não existirá tecido algum — quer o consideremos “espaço-temporal”, ou “apenas” existencial.
Tudo o que parece existir é um encordoado de quantos de energia, por um lado, e as deformações originadas pelos corpos com “massa”, por outro...
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (9)
Entretanto, Íris batia à porta de Tália.
Mas em vão. Ninguém parecia estar em casa.
“Logo hoje, que aquele «fenómeno» no céu nunca esteve tão visível...”
“...e não é todos os dias que se consegue observar «aquilo»”, reflectiu um pouco desanimada.
Para Íris, talvez fosse Tália a única pessoa que a pudesse ajudar a decifrar aquele enigma. Afinal, tudo parecia indicar que fora ela a primeira a transmutar-se — logo, a sua percepção deveria ser muito mais elevada.
E «aquilo» era algo que começava a inquietá-la; porque aquele mistério já se arrastava há algum tempo e ninguém(!) parecia descobrir o que quer que fosse. E poucos eram até os que o conseguiam ver...
“Onde poderás estar Tália?”
Ela não estava no Grande Domo, não estava no Instituto de Estudos Quânticos, não estava em casa da mãe, não estava no atelier...
“...Talvez esteja no «Palissade»!”, lembrou-se ficando subitamente entusiasmada.
Não estava muito longe do pequeno salão de chá que ficava em frente ao jardim do lago verde. E encaminhou-se para o “La Palissade” a passo rápido recordando-se de que fora Aleathor quem a levara lá pela primeira vez. “Ele e a Tália costumam frequentar aquele sítio acolhedor. Por isso acho que a vou encontrar ali”, pensou animada.
Mas estacou e olhou repentinamente para o céu.
“Sim”, ainda estava lá — suspirou de alívio estranhando ao mesmo tempo aquela reacção: Será que era afecto, de novo, aquilo que agora sentia?
O mistério de Íris (6)
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (9)
Elin continuava a mostrar-me os seus apontamentos:
...Mas, admitindo que os corpos com massa são, afinal, conjunções mais ou menos complexas de (quantos de) energia — então, tudo quanto existe é um encordoado de vórtices de energia com zonas desse encordoado deformadas. E deformadas pelo quê?
® Por encordoamentos diferentes: menores, maiores, mais ou menos complexos...
® E esses encordoamentos — ou essas deformações no encordoado global — são as próprias Entidades.
Claro que esses encordoamentos produzirão informação – ao nível holístico ou a outros níveis. Embora cada encordoamento seja, no fundo, constituído pelos mesmos cordões quânticos de energia, a sua organização, a sua disposição, a cooperação sinergética dos seus componentes ® gera complexidade, informação ® gera Entidades.
·Sobre a perda de memória originar o movimento aleatório...
...Apesar disso, a conservação de alguma memória, como por exemplo
na desintegração pela interacção fraca de algumas partículas poderá contrariar esta aleatoriedade, permitindo a ausência de um puro caos.
As diferenças de conteúdo de informação parecem produzir descontinuidades no tecido existencial.
...Ou, dito de outro modo, as diferenças entre as diversas perdas de memória (do todo em relação a si mesmo) “ao longo” da existência parece produzir deformações na trama existencial, originando as “texturas” de um “tecido”. Essas deformações constituem, ou são, as próprias entidades.
As entidades são diferenciais de esquecimento...
As entidades são os diversos diferenciais de esquecimento do todo em relação a si próprio.
A perda de memória seria assim o mecanismo fundamental na produção das múltiplas entidades que povoam a existência.
É a perda de memória — a perda de conteúdo informativo em relação à totalidade — que, em vários níveis, produz as diversas entidades no seio da existência. Cada uma dessas entidades não é mais que um determinado conteúdo de informação. Sempre menor do que a informação total — a informação contida no todo.
E serão as diferentes perdas de memória — ou fases, ou níveis de esquecimento — que possibilitam que a existência se desmultiplique em inúmeras formas, em inúmeras entidades.
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (9)
...Mas Tália não estava no “La Palissade”. Nem estava no Grande Domo Transmutalista, nem em qualquer outro dos outros locais em que Íris a procurara...
Era “desesperante”, pensou.
“Bem, resta-me voltar ao Instituto de Estudos Quânticos...”, admitiu conformada enquanto se encaminhava para aporta de saída.
Foi quando surgiu Elya.
O mistério de Íris (7)
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Assim, admitindo que não existe espaço, nem tempo, gravidade, matéria, massa, ou sequer movimento, tudo o que parece existir são cordões e deformações. Deformações – ou mais exactamente – diferentes regiões de esquecimento
“espalhadas” pela existência ® já que “esquecimento” ou “diferencial de memória” serão concepções mais correctas do que “conteúdo de informação” tendo em conta que não existirão, propriamente, diferentes conteúdos de informação, mas sim diferenças, maiores ou menores, em relação à informação completa contida no todo.
— Então, o que é que achas?
Era uma boa pergunta...
— Bem... ainda não te posso dizer o que acho. Só te posso dizer o que sinto.
— E então?
— O que sinto é que... ou nunca tiveste um vislumbre tão próximo da verdade, ou então...
— Ou então?...
— Ou então, tudo isso é um completo disparate — respondi.
— Não achas nem mais nem menos do que eu... sinto precisamente o mesmo. Na realidade não era de tudo isto que eu estava à espera quando fui reflectir para o café em frente... a minha intenção era começar, finalmente, a enunciar o Cálculo Transmutacional.
— Se calhar foi isso o que fizeste — disse eu pensativo — já te apercebeste de todas as consequências implicadas na tua teoria?
— Não é ainda uma teoria, é apenas um esboço. Ainda precisa de ser muito trabalhado para...
— Sim — atalhei — mas mesmo assim!... Já te apercebeste como essa tua “visão” revoluciona completamente os conceitos que temos das coisas?... Todas as nossas concepções de existência, de Deus e do que são entidades, como nós por exemplo, fica completamente alterada!...
— De facto. Isto altera tudo. Obriga-nos a repensar todos os conceitos...
— E outra coisa... — apercebi-me — nunca conheci nada que aproximasse tanto o homem de Deus. E... ou eu estou louco, ou então tudo isso faz um tremendo sentido!... À luz dessa visão das coisas faz cada vez mais sentido que uma determinada coisa – uma entidade – possa transformar-se noutra coisa qualquer. E, claro está, que o homem – que também é uma entidade – se possa transformar por exemplo num deus!...
— De facto, tudo parece começar a encaixar-se.... — reflectiu Elin — Mas a minha intenção tinha sido a de começar a arquitectar a estrutura matemática do Cálculo Transmutacional — insistiu um pouco desapontado — e não foi nada disso que eu fiz!
— Deixa lá, Elin. Talvez tenhas feito muito mais que isso. Talvez tenhas criado as bases para uma nova matemática alicerçada em diferentes axiomas e em toda uma nova visão das coisas e do universo.
Talvez a realidade não seja exactamente como tu a vislumbraste, mas talvez tenhas aberto o caminho para a criação do cálculo transmutacional...
“E também talvez ele até tivesse razão”, pensou Elin.
E, agora, que lhe parecera ter vislumbrado coisas nunca dantes imaginadas, estava mais determinado do que nunca a arquitectar o Cálculo Transmutacional!...
Começou a reunir uma grande quantidade de livros e outras publicações que o poderiam auxiliar...
Mas alguém bateu à porta.
Fui abrir.
Era Íris.
— Ainda bem que vos encontro! Estou cansada de tanto palmilhar à procura de Tália — [respiração ofegante] — Mas ela vem finalmente aí. Telefonou à Elya enquanto estávamos no “Palissade” e...
— Não estou a compreender nada — atalhei.
— É que “aquilo”, aquela coisa no céu, está hoje particularmente visível!... Elya também veio comigo. Está lá em cima, na clarabóia.
Foi quando começaram a compreender tudo:
“Ígneo(s)” não era um livro.
Era um holograma vivo.
Era um conjunto de seres.
Era como um mascote inseparável, acompanhando o seu possuidor até à Sabedoria e à Transmutação.
E aquilo que viam no céu, aqueles estranhos globos, eram os olhos do leitor-que-os-lia!...
Como se encontraram todos na clarabóia do Instituto de Estudos Quânticos, eles, os “AKINs” decidiram que não havia nada como a natureza para produzir a inspiração necessária para compreenderem todo um novo universo que se lhes deparava.
Por isso combinaram encontrar-se numa linda praia de um mar muito límpido de cor azul turquesa.
Elin pediu a Atlan que levasse também Ígneo e Tália McFee.
E correram todos para o início do “livro”....
...e é assim que se dá início ao que “viria-eio-á” a ser a saga de Ígneos: ígneos-1, ígneos-2, ígneos-3,...,ígneos-7.
...seria necessário voltar ao início do livro e “re-prosseguir” a saga interminável de
Emmanuel de Cériz, "IGNIUS - O Mistério da Transmutação" (9)