parte I
A saga de
eoalkper eoasell
(síntese simbólica
do percurso)
Há muitos milhares de anos, existia uma pequena nação de guerreiros,
onde vivia uma criança, com sete anos de idade, chamada Eoalkper
Eoasell.
Eoasell era uma criança em tudo
semelhante às outras mas, tinha a estranha sensação de que, aquilo
que era, não correspondia ao seu verdadeiro ser. Sentia que este seu
corpo era muito frágil e limitado; como que o estranhava. Porém,
perguntava-se:
“Como posso estranhá-lo se
nunca tive outro?”
Por vezes, tinha realmente a sensação
de que já tinha tido uma natureza diferente, poderosa e ilimitada e,
que agora, estava aprisionado neste corpo onde aprisionadas estavam
também as suas capacidades.
Não, esta não poderia ser a
sua verdadeira natureza: nas suas brincadeiras, a sua força
interior, fazia-o saltar de altos muros, mas ao aterrar, rachava a
cabeça e magoava-se. Apesar disso, persistia, sentia que não poderia
ser assim, ele não era assim, não poderia ser assim frágil. Ao
brincar de guerreiro, atirava-se sozinho contra muitos adversários.
As outras crianças envolviam-no como formigas e acabavam por fazê-lo
tombar. No interior de Eoasell pulsava um outro tipo de ser — um ser
indomável e ilimitado. Um ser que se entristecia por não poder
cruzar os céus como um cometa e mergulhar no fogo do sol,
atravessando-o de um lado ao outro e ficando ao rubro, mas
mantendo-se indestrutível, imparável, pleno de liberdade total.
Deveria ser capaz de derrubar muros, de remover rochedos, de parar a
chuva e, sempre que se ferisse, o seu corpo deveria regenerar-se de
imediato. Eram estas as estranhas sensações do pequeno Eoalkper
Eoasell.
Quando fez quinze anos, passou
casualmente em casa de Elinoa, uma velha sábia. Encontrou-a reunida
com outras anciãs. Soube que algumas eram de terras distantes, do
outro lado da costa. Como estavam na estação fria, sentavam-se em
volta do fogo que crepitava e contavam lendas e histórias de um
passado longínquo e nebuloso. Uma dessas lendas causou um impacto e
um sentimento de familiaridade inesperados em Eoasell. Quem a
contava chamava-se Amaroa:
“Há muito tempo atrás, existia um deus
chamado Manu. A sua aparência física era semelhante à de um humano.
Diz-se até que foi criada por ele a nossa espécie.
“A dada altura, não se sabe bem porquê,
Manu decidiu deixar de ser um deus para se tornar humano. Talvez
porque se sentia só e queria ser um entre muitos seus iguais, ou
porque queria fazer evoluir os seres humanos a algo semelhante a si
próprio, ou porque se queria transcender... ninguém sabe ao certo.
“Manu fragmentou-se então em muitas
partes e misturou –se com as almas dos embriões humanos. Ao
dividir-se em várias partes perdeu a consciência de si próprio e
entrou no oblívio, no esquecimento de si mesmo. Porém, em algumas
crianças, sobraram memórias vagas da natureza passada de Manu.
“Foi o que ocorreu com um menino
chamado Eus. Desde muito cedo começou a sentir uma estranha
nostalgia. Era como se estivesse habituado a outro tipo de
existência, mais livre, com menos impossíveis. Sentia-se também
pouco integrado na sua espécie. As outras crianças não partilhavam
da sua sensibilidade e do seu gosto por desvendar os mistérios do
universo. Divertiam-se a fazer mal aos animais e faziam chacota do
seu interesse por aprender as ciências do mundo. Mentiam e, por
vezes, roubavam-lhe coisas. Eus não compreendia a maldade que
encontrava nos seus semelhantes, sobretudo nos adultos que cometiam
actos ainda mais cruéis e brutais. Não se sentia fazendo parte da
mesma espécie nem se sentia em casa. Por isso sonhava em encontrar o
caminho para “casa” e conviver com os da sua “própria espécie”.
“Um dia teve um sonho muito estranho.
Sonhou que estava suspenso a alguns metros do solo sobre umas
colinas verdes onde passava um ribeiro. Irradiava energia e tudo à
sua volta, as árvores, o céu e a água pareciam ondular e vibrar de
acordo consigo numa coreografia viva e plena de amor. Toda a
natureza em seu redor comportava-se como uma extensão de si próprio.
Depois, subitamente, o seu corpo transformou-se numa bola de fogo
que ascendeu ao céu e explodiu em inúmeras centelhas de luz. As
centelhas voaram e, como que por instinto, cada uma delas encontrou
um feto humano com o qual se fundiu. Aqui, Eus acordou.
“Depois desse dia, a natureza de Manu
começou a despertar em Eus que, como que por instinto, seguia o
caminho para alcançar a liberdade dessa existência sonhada.
“Após ter vivido ainda muitos anos
alcançou-a mesmo e tornou-se um ser sem limitações como Manu, mas
conservou também todas as boas qualidades da humanidade.
“Assim termina a lenda de Eus” –
concluiu Amaroa.
Uma lágrima correu pela face de
Eoasell. Era a primeira vez que ouvia algo de comum com o que sempre
sentira no seu interior. Pensou que talvez algo de idêntico com a
lenda que escutara tivesse ocorrido com ele. Isso explicaria a
sensação que sempre tivera de não pertencer verdadeiramente ali e de
já ter sido um ser muito diferente.
Quer fosse assim ou não, Eoasell
começou a pensar que deveria ser possível transformar-se num ser
ilimitado. “Mas como?” – interrogava-se.
A sua busca não foi fácil. Frequentou
todos os arquivos e leu todos os escritos que pôde, mas não havia
quase nada que o pudesse ajudar a descobrir como conseguir
transformar a sua natureza em algo ilimitado. Era algo estranho e
ignorado.
Prosseguiu no entanto com a sua
aprendizagem sobre o que se conhecia do ser humano e das leis da
natureza. Havia vestígios de ciências antigas, de um tempo em que
houvera na Terra um conhecimento mais avançado e parcialmente
perdido. Depois da sua deambulação por vários lugares do seu mundo e
da meditação daquilo que se conhecia da história da humanidade, só
lhe restava deixar-se guiar pelo seu instinto e pela sua intuição.
Começou então a fazer experiências consigo próprio. Aprendera uma
coisa com um velho místico que conhecera numa ilha distante e que
lhe trazia uma espécie de conhecimento silencioso. O velho dizia que
era uma forma de beber directamente da fonte do conhecimento
universal. Era uma espécie de meditação em que se mergulhava por
breves instantes num estado sem pensamentos. Durante esse tempo a
consciência habitual anulava-se e ficava apenas um outro tipo de
consciência, uma consciência impessoal. O velho Quatl chamava-lhe
atingir o estado zero, tornar-se no nada.
“Ser o nada e conseguir doseá-lo,
manejá-lo, nisso consiste o grande segredo da existência” — dizia.
Porém, para o próprio Quatl, isso era
uma verdade intuitiva e nem ele compreendia todo o seu alcance.
“É muito difícil atingir o nada” —
prosseguia o velho --”e mais difícil ainda conseguir sê-lo e manejar
esse estado, entre o nada e o ser.”
Um dia, Eoasell teve um grave acidente.
Caiu por um precipício e pelos seus ferimentos perdeu quase metade
do seu sangue. As dores eram lancinantes e sentiu que estava a
morrer. Então, subitamente, mergulhou numa espécie de sonho, mas sem
as características habituais de um sonho; possuía todas as
qualidades e nitidez de uma experiência real: encontrava-se à
entrada de um estranho edifício que reconheceu ser uma biblioteca,
não tendo no entanto visto nunca uma igual. Também o tempo e o lugar
lhe eram estranhos. Apesar disso entrou e sentiu-se fortemente
atraído por um dos volumes daquilo que lhe disseram ser um livro, um
conjunto de folhas envolto por uma capa dura. Abriu-o, aparentemente
ao acaso e, sem saber como, compreendia perfeitamente a língua em
que estava escrito. Mas o mais surpreendente é que estava lá tudo,
com uma clareza e uma simplicidade impressionantes. Todos os
segredos que procurara desvendar todos esses anos: os segredos
acerca do controlo total sobre o corpo e a alma e sobre a expansão
da consciência.
Os princípios eram tão claros que
resolveu experimentar de imediato. A primeira sensação que teve foi
a de sentir o seu corpo flutuar até se encontrar próximo do tecto da
sala. Nessa fase sentia que metade do seu eu estava no seu corpo e
metade espalhada no ambiente à sua volta. Expandiu mais a sua
consciência, a sua presença, e percepcionou uma parte do mundo em
que estava inserido. Viu centenas de pessoas, de casas, de
paisagens...
Expandiu-se ainda mais e viu uma
multidão de imagens, de rostos, de acontecimentos. Teve a sensação
de que era toda a Terra.
O movimento de expansão continuou e as
sensações tornaram-se mais difíceis de definir porque eram visões
caleidoscópicas, muitas imagens de muitos mundos, de muitas
realidades. A sua consciência estava espalhada por toda a
existência.
Entretanto, o movimento prosseguia. O
seu ser deixava-se ir, atraído cada vez mais para o todo, para o
infinito... até que as formas já não eram distinguíveis. A sua
percepção de conjunto assemelhava-se a um oceano de energia com um
formato semelhante a uma galáxia de uma luz suave e de cor clara, na
qual estava a essência de todas as coisas. Havia apenas um som que
era a fusão de todos os sons e se assemelhava ao rumor longínquo de
um oceano, porém constante, infinito e incessante. Havia apenas um
sentimento, agradável, de paz, de totalidade, de suave plenitude.
Mas o que mais caracterizava este sentimento era a ausência de ego e
de eu, uma sensação impessoal de pertencer à consciência universal
(seria Deus?). Havia apenas uma cor, apenas um som, apenas um
sentimento.
Eoasell sentia-se como que uma gota de
água a começar a mergulhar e a dissolver-se nesse oceano
existencial. Sentia que era um indivíduo com a sua pequena
consciência prestes a perder a sua individualidade para passar a
fazer parte dessa consciência gigantesca e impessoal. Era como se
estivesse próximo de deixar de ser. A existência absoluta
afigurava-se-lhe semelhante à não existência. Ao mesmo tempo, aquele
estádio, parecia ser o patamar máximo que qualquer ser poderia
atingir: a eternidade, a paz absoluta. A imutabilidade resultante da
soma de todas as mudanças.
Sentiu que estava a ir longe de mais e
que, se avançasse apenas mais um pouco, o processo seria
irreversível e jamais poderia recuar.
Tudo isto foram as suas impressões e
reflexões realizadas numa fracção de segundo, nessa fase intermédia
em que a sua mente principiava a deixar de pensar e começava a
diluir-se na essência da totalidade,. Mas foi o bastante:
produziu-se imediatamente um movimento súbito de recuo, como um
elástico. Sentiu-se atravessar rapidamente em sentido inverso os
estados anteriores que o conduziam à sua individualidade e abriu os
olhos num sobressalto: não estava na biblioteca. Encontrava-se
deitado no seu quarto e ao seu lado, olhando para si, estava Quatl,
boquiaberto.
“Onde estava o livro?” – foi o primeiro
pensamento de Eoasell. Procurou desesperadamente lembrar-se do que
lera. Por um momento tivera na mão todos os segredos da existência e
agora não se lembrava de quase nada. Apenas recordava uma frase
síntese, algo como “o que é preciso é ser o nada e manter o nada”...
uma frase semelhante à que lhe dissera o velho.
“O que aconteceu?”- perguntou Quatl
–“Pensei que tinhas morrido. Já faz algum tempo que o teu corpo tem
estado completamente inerte, como morto.”
Eoasell contou-lhe a sua experiência e
o velho disse-lhe que possivelmente estivera muito próximo da morte
física e que, se não tivesse recuado, o seu corpo não teria
regressado à vida. Disse-lhe também que, provavelmente, acabara de
desperdiçar uma das raras oportunidades que o ser humano tem de
voltar a fundir-se com a Unidade e atingir assim a paz obtida pela
libertação do ego e do sofrimento da consciência individual.
Provavelmente, a possibilidade que lhe restava agora seria a de
efectuar uma longa caminhada até ao dia em que, eventualmente,
pudesse atingir um estado de pureza tal que o seu ego se
desvanecesse e ele conseguisse, enfim, descansar na plenitude da
inexistência dessa existência absoluta que ele havia
percepcionado como um mar de energia.
Depois dessa experiência, tentou em vão
recordar-se do que lera nesse estranho livro. De qualquer forma,
sentia-se diferente, como se os seus horizontes interiores tivessem
alargado e o alcance da sua mente se tivesse expandido.
A sua mente era agora mais rápida. A
partir daí, lançou-se progressivamente numa exploração vertiginosa
do alcance do seu próprio pensamento. Pôs tudo em causa, dissecou
todas as ideias, pensou os seus próprios pensamentos. Reflectiu
sobre a origem do mundo e do universo, sobre Deus e o objectivo da
existência e descobriu que, ao ultrapassar os limites do pensamento,
penetrara nas raias da loucura. Verificou que para atingir
determinadas acepções tinha de pôr de lado a lógica e o senso comum
e, quando as características do pensamento se diluíam e todo o
raciocínio se tornava difuso, era preciso, mesmo assim, continuar,
nem que fosse às cegas até encontrar, de novo, a luz.
Esse foi o início daquilo a que
chamaria mais tarde “a batalha da loucura” -- o atravessar do
túnel do pensamento até sair, finalmente, pelo buraco oposto.
Era como atravessar um longo campo de
areias movediças. Parar a meio seria afundar-se, seria enlouquecer.
Era necessário avançar, avançar sempre. Os extremos tocam-se e a luz
deveria voltar a surgir e com ela o alcance do seu objectivo: a
amplificação da consciência.
Eoasell não sabia que essa seria uma
batalha que, ainda que entrecruzada com muitas outras, se estenderia
por cerca de vinte anos...
A sua busca, todavia, continuou. Em
breve realizou a primeira experiência consigo próprio, em que
procurou transcender os limites do seu ser. Baseou-se numa ideia que
vinha desenvolvendo há algum tempo atrás, fruto da sua pesquisa e
reflexões. Pressentia em todos os seres uma mesma natureza
intrínseca, uma força, uma energia ilimitada. O que cristalizava os
seres humanos em formas limitadas e enfezadas era uma espécie de
fuligem que encobria essa energia luminosa que agora apenas ardia no
âmago dos seres, reduzida à dimensão de uma centelha. Essa fuligem
era constituída por todas as dúvidas e temores que castravam o
infinito em cada um de nós. Todas as nossas crenças nas
impossibilidades disto e daquilo aprisionam-nos em gaiolas
existenciais. Assim também todos os nossos condicionalismos: só
estaríamos libertos e limpos quando ultrapassássemos os limites
impostos pela nossa espécie, pelo nosso sexo, pela nossa idade, pela
nossa nacionalidade, pela nossa educação...
Génese e Investigação
Apesar de ter sido uma criança de constituição normal, as primeiras
memórias que recordo da minha infância estão relacionadas com a
estranheza que senti perante as limitações e a fragilidade do meu
corpo e também com a incapacidade do meu ser em vergar um pouco
as leis da natureza à minha volta para melhor executar os meus
actos. Estranhava também a regeneração limitada e lenta dos
ferimentos, não conseguir moldar a forma do meu corpo ou assumir
outras formas e a impossibilidade de me transportar, rapidamente, a
lugares que via, distantes.
Talvez que o impulso que deu origem às
primeiras ideias de transmutação esteja na base de um desejo de
“restauração” pessoal com essas qualidades, cuja ausência estranhava
tanto. De algum modo sentia que o natural seria tê-las e anormal não
as ter. A origem dessa sensação parecia, por lógica, ser baseada na
“memória” vaga mas persistente de algum tipo de experiência ou
status anterior. “Se essa era a minha verdadeira
natureza, então deveria ser possível recuperá-la”.
Assim, a ideia, ainda vaga e pouco
definida, de que o ser humano teria a possibilidade de transmutar-se
num outro tipo de ser, com um controle sobre si próprio e sobre o
meio envolvente quase ilimitado, conferindo-lhe incorruptibilidade e
capacidade de regeneração total face a quaisquer danos ou destruição
do seu ser, surgiu também muito cedo, ainda na minha infância, e não
posso precisar exactamente quando, pois também é uma das primeiras
impressões de que me recordo.
Não
sabia como fazê-lo e se seria realmente possível realizar tal
transformação. Mas, como a necessidade de me sentir bem era grande,
quase imediatamente, procurei obter dados que me permitissem
consegui-lo. Como ainda não sabia ler, ao meu alcance estavam apenas
as observações e reflexões sobre o que se passava à minha volta.
Também fazia perguntas mas, a maioria, eram mal compreendidas e eu
próprio não sabia muito bem sobre o que perguntar.
Depois que aprendi a ler, comecei a pesquisar tudo o que pude nos
mais diversos campos do conhecimento humano. A Física (sobretudo a
Teoria Quântica), a Matemática, a Bioquímica, a Biologia, a
Neurologia, a Psicologia, a Ciência Cognitiva, a Inteligência
Artificial, a Ciência dos Computadores, a Electrónica e, por outro
lado, a Mitologia, a História, a Linguística, a Filosofia, a
Parapsicologia, a Ficção Científica, as Religiões e o Esoterismo
foram os meus alvos preferenciais.
Entre milhares de livros
que li, há alguns que não posso deixar de salientar pelo fascínio
que me suscitaram:
“Supercérebro”, » » » »
“Curso adiantado
de filosofia iogue”, Iogue Ramacháraca
As obras de Carlos
Castaneda
“Ilusões”,
Richard Bach
“Fernão Capelo
Gaivota”, » »
“Serafita”,
Honoré de Balzac
“Um estranho numa
terra estranha”, Robert A. Heinlein
“Teoria da
evolução estratificada do cérebro humano”, R. Balbi
Definições
Nada neste mundo é
tão poderoso como uma ideia cuja oportunidade chegou.
Vítor Hugo
O que é o Transmutalismo?
O Transmutalismo é,
essencialmente, uma Atitude Ontológica. Uma postura diferente face à
existência e ao nosso próprio ser.
As atitudes mais comuns face à
existência resultam na aceitação do ser (do que se é) e numa redução
a esse mesmo ser: redução às suas características, limites, forma e
possibilidades.
Esta atitude comum consiste em viver
sendo, apenas, o tipo de ser que se é, até ao fim. Nunca este é
colocado em causa. A nossa consciência aceita o tipo de ser com que
nasce, aceitando as suas possibilidades mas também os seus limites.
Vive nessas condições até se extinguir a vida, nunca se questionando
se poderia transmutar o seu ser num outro, cujas características
poderiam ser, até, tão diferentes como as de uma nova espécie.
Para além de se limitar às
características do seu tipo de ser, faz também parte da atitude
ontológica comum, aceitar a sua decadência e o seu fim, com a morte.
Encontramos aqui três
sub-atitudes principais:
1.
Aceitação e
redução ao que se é apenas.
2.
Aceitação da
decadência do ser.
3.
Aceitação da
morte como fim inevitável.
Subjacente
às três grandes sub-atitudes, está uma atitude global – a da
Sujeição, da Submissão.
Submissão aos mecanismos da vida e da
existência.
O Homem é,
assim, um ser sujeito aos elementos. Um ser completamente dominado e
submisso ao espaço-tempo e à sua própria natureza.
A consciência humana é passiva –
percepciona e reflecte sobre o meio mas, não o domina. Não age
directamente sobre o meio envolvente e actua , apenas em pequena
parte, sobre o seu próprio ser.
Cada ser possui um determinado nível de
energia, transaccionando energia dentro de determinada escala. A
consciência submete-se , assim, aos limites pré-concebidos de cada
espécie de ser.
Poderíamos pensar que a sujeição não é
total porque, afinal, o tipo de ser que o homem é, não voa e, no
entanto, construiu máquinas que o transportam voando. Porém, o
homem não expandiu o seu próprio ser para que voasse; a submissão à
impossibilidade de voar esteve sempre presente. Isto é, na sua
escalada para ultrapassar os seus limites, o homem nunca o fez
ontológicamente; nunca expandiu o seu próprio ser, eliminando, de
facto, os seus limites; a via que seguiu consistiu em criar
artefactos e tecnologia para os contornar. Despojado de tudo
isso, o ser humano encontra-se idêntico ao ser humano de há milhares
de anos. O que seria de nós sem a tecnologia?
Ao longo de todos estes milhares de
anos, a evolução do ser em si mesmo -- a evolução ontológica
-- foi diminuta.
A consciência humana comporta-se como
um subproduto do corpo e não catalisa energia suficiente para
realizar a sua completa gestão. Há casos de cura de certas doenças
pela “energia da fé”. Nesses casos, suponho que a
consciência atingiu, por momentos, uma maior gestão do corpo. A
consciência passou de passiva a actuante.
O Homem, na sua generalidade, sempre
viveu tentando satisfazer as suas necessidades, explorando as suas
possibilidades e aguardando pelo fim ( alguns depositando a sua
crença numa vida após a morte). Este “modus vivendi” faz
parte da submissão à condição de ser humano.
Imaginemos
agora, uma sociedade em que as pessoas vivessem procurando
transmutar-se em seres cuja consciência seria dominante sobre o meio
e o próprio indivíduo. Uma sociedade em que as pessoas vivessem
para se transmutarem em seres ilimitados... Seria algo semelhante a
um mundo em que os seres humanos seriam como as crisálidas que
precedem as borboletas, sendo estas últimas, os seres humanos já
transmutados em seres quase sem limites devido às suas consciências
agora dominantes e actuantes.
Utópico? Talvez não. Talvez o que nos
falte para isso, seja a crença nessa nova possibilidade. A vontade
e o querer ajudarão a consciência a descobrir os meios para o
conseguir.
O que diferencia a consciência humana
da dos restantes animais é que essa consciência atinge a noção do
seu tipo de ser, das suas possibilidades e limites e consegue
imaginar a transmutação num outro tipo de ser.
Os outros animais parecem ter uma
consciência indefinida sobre o seu próprio ser e possivelmente nula
sobre a possibilidade de se transmutarem. Deste modo nunca poderão
querer ser aquilo que não conseguem sequer imaginar.
Talvez por isso a consciência humana
esteja no limiar das possibilidades para se auto transmutar, já que,
pelo menos, entrevê essa possibilidade.
Ao longo da história, o que faltou à
nossa espécie para a criação e desenvolvimento de uma atitude
transmutalista, face à existência?
Suponho que fundamentalmente:
1.
A
crença na
possibilidade da transmutação do homem.
2.
A
vontade e o desejo de
realizar essa transmutação.
Isto, porque, afinal, foram criadas e
desenvolvidas outras atitudes complexas, como por exemplo, a atitude
de viver preparando-se para o merecimento de uma vida plena
após a morte. Os factores que desenvolveram esta atitude são da
mesma ordem:
1.
A crença
na possibilidade de atingir uma vida plena após a morte.
2.
A vontade
e o desejo de a atingir.
Não
pretendo retirar a validade desta atitude, aqui tomada como
exemplo. Contudo, é interessante observar que a possibilidade de
obter uma imortalidade agradável, é relegada ao juízo dos deuses.
Dá a sensação de que o homem, tem procurado retirar de si, a
responsabilidade de conseguir ultrapassar certos limites e a tem
colocado nas mãos das divindades, da natureza, do Karma, dos ciclos
existenciais, das reencarnações, etc.
“Vou comportar-me bem, para que,
depois de morrer, Deus me dê a vida eterna”.
Esta atitude existencial é subjacente em grande parte, senão na
maioria das religiões. Apenas quero aqui salientar um pormenor:
Pretende-se obter a vida eterna como um presente, através de um
merecimento. Não é realizado um trabalho directo na criação
dessa vida eterna pelo homem.
Há um outro factor preponderante: Esta
imortalidade, esta vida eterna é somente obtida após a morte, sem
que nós, os vivos, possamos algum dia saber se é verdade ou não. Se
é verdade ou não que, pelo menos, este ou aquele indivíduo
alcançaram a vida eterna após a morte. Após a morte, é uma cortina
negra; do que se lá passa, nada se sabe de concreto e, assim, também
se não pode negar qualquer afirmação. Não se pode saber se é
verdade ou mentira. Talvez por isso, determinadas crenças
religiosas sejam alicerçadas em acepções que não podem ser provadas;
daí a sua durabilidade. Grande parte destas crenças estende-se por
séculos ou milénios.
Imaginemos uma religião em que a
principal crença seria a de que, o homem pode, em vida,
transmutar-se adquirindo vida eterna. Para essa religião, uma tal
crença seria um perigoso alicerce. Possivelmente bastaria uma ou
duas gerações de discípulos, sem que nenhum atingisse a
transmutação, para que essa religião caísse em descrédito. Quantos
terão atingido a vida eterna após a morte? Não sabemos. E, como não
sabemos podemos continuar a acreditar.
A transmutação dos indivíduos seria
algo constatável. Como tal, seria necessário que, pelo menos um
indivíduo da espécie humana, realizasse essa transmutação, para que
tal crença pudesse subsistir. Curiosamente, segundo o texto bíblico
da religião cristã, foi constatada, o que parece ter sido uma
transmutação. Depois de crucificado, Jesus Cristo, no seu túmulo,
transmuta o seu corpo no “corpo glorioso”, adquirindo vida eterna.
Porque será que, apesar da ocorrência
deste episódio registado na bíblia, não surgiu uma atitude
transmutalista no seio da humanidade? Porque não surgiu a crença de
que a espécie humana tem a possibilidade de
transmutar-se?
Uma forma de evitar tal crença seria a
de negar que Jesus faria parte desta espécie humana.
A religião, ao considerar que Jesus
conseguiu ressuscitar por ser filho de Deus e não como ser humano
(que também seria), retira aos restantes seres humanos a mesma
possibilidade.
No entanto, na própria bíblia, é
enfatizado que em Jesus, o espírito de Deus nasceria homem, tão
homem como os demais. Jesus Cristo teria sido, portanto, um
elemento da espécie humana que se transmutou num ser divino
(independentemente do espírito de Jesus ser de origem divina pois,
afinal, segundo o texto bíblico, todos os espíritos vêm de Deus).
Se numa época de “olho por olho, dente
por dente”, surge um ser humano com uma mensagem de amor e
tolerância e se, como consequência da sua evolução, realiza também
acções paranormais interpretadas como milagres, a sua
mensagem só é parcialmente captada. Isto porque esse ser é
imediatamente idolatrado e apenas alguns dos seus ensinamentos são
assimilados. Os restantes são atribuídos à sua condição divina e,
portanto, não são seguidos por serem considerados impossíveis para
nós, simples seres humanos.
É de novo a tendência humana para a
sujeição.
Meditemos no significado de
Transmutação em Física Nuclear:
Transmutação corresponde à
transformação física de um elemento noutro. Por exemplo, à
transmutação do chumbo em ouro. Em aceleradores de partículas,
consegue-se efectuar a transformação de átomos de chumbo em átomos
de ouro. Para o fazer é necessário “injectar” uma grande quantidade
de energia ao átomo de chumbo para que este se converta em ouro. Na
realidade, o núcleo do átomo de chumbo é bombardeado com partículas
de alta energia.
Penso que a transmutação está
intimamente relacionada com a energia. Se o ser humano conseguir
catalisar, uma grande quantidade de energia, possivelmente, entrará
em processo de transmutação. Paralelamente, dar-se-á a expansão da
consciência. A consciência poderá vir a conseguir gerir a totalidade
do nosso corpo e até parte do meio ambiente.
Até hoje, encontram-se na história,
poucos exemplos de indivíduos que possam ter realizado a sua
transmutação. Este fenómeno não é surpreendente se repararmos que
nunca existiu, no seio da nossa espécie, nem a atitude propensa à
transmutação, nem tão pouco a crença de que a mesma seria possível.
Estou convencido de que, se um número
significativo de seres humanos, tivesse compartilhado o mesmo
interesse em transmutar-se, o somatório de todas as tentativas e
experiências realizadas, constituiria já um conhecimento tão vasto,
que teria possibilitado a muitos atingir essa realização.
A física quântica veio demonstrar,
recentemente, que a consciência do observador influencia o fenómeno
observado. Isto é a confirmação científica de que nós podemos
alterar a realidade da qual fazemos parte.
Apesar do quase total desconhecimento
histórico de exemplos de transmutação, existe uma grande quantidade
de casos de realização parcial ou de afloramento deste processo:
-
Os corpos de
muitos indivíduos que foram considerados santos, não sofreram,
depois da morte, o habitual processo de decomposição. Estes corpos
foram observados, por milhares de pessoas, em urnas de vidro em
diversas templos. Durante muitos anos, a sua aparência, manteve-se
quase inalterada.
-
A anulação do
ego e o alcance do estado de nirvana por vários discípulos do
hinduísmo e budismo. A expansão da consciência e a identificação com
a essência universal.
-
A obtenção de
diversos poderes paranormais por iogues, monges tibetanos e outros
místicos e ascetas.
Podemos chegar assim à síntese de
algumas definições:
O Transmutalismo é o estudo e a
investigação do transformismo e da transmutação com o objectivo de
dominar o mecanismo de transmutação da matéria e da energia, do
tempo e do espaço, dos objectos e dos seres.
O Transmutalismo é uma atitude nova do
ser face à existência, orientada para a realização da transmutação
individual.
A transmutação individual é
a transformação do ser humano num outro tipo de ser, desprovido das
nossas limitações e impossibilidades. Desprovido da rigidez
limitante do nosso corpo. Um tipo de ser que vive num estado de
domínio sobre si e o meio ambiente, e não num estado de sujeição aos
elementos.
O Transmutalismo é uma fusão do ser
com a arte — a mais elevada actividade do espírito humano. Via ideal
para gerar o estado de liberdade total.
O Transmutalismo é,
também, o esforço e o trabalho de investigação para transmutar,
ainda em vida, o corpo humano num corpo reversível, incorruptível e
imortal, cuja consciência deverá controlar, completamente, todo o
metabolismo e a realidade em seu redor.